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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Adriana e Sofya


Às 4h30 da manhã de domingo o telefone toca. É Dona Cristina para dizer que Adriana está em TP. A bolsa rompeu às 03h00 e agora ela já está com contrações de 20 em 20 minutos. Pensei: se eu chegar lá em uma hora ela terá tido 3 ou 4 contrações, tudo bem... olhei para o relógio e enxerguei os ponteiros invertidos: eram 04h20 e eu vi 06h30. Falei que 07h30 mais ou menos eu estaria chegando.

Quando desliguei o telefone meu marido me alertou para a confusão. Mas ainda assim fiquei tranquila, confiei na Adriana e fui tomar banho, depois arrumei as coisas, passei álcool na bola... Telefone toca de novo, 05h45, é Dona Cristina: "Vânia, já deu 8 contrações seguidas com intervalo de 5 minutos". Falei que em meia hora estaria lá. Chamei minha irmã para me levar e chegamos 06h20. Adriana estava sob o chuveiro, apoiada na parede. Tinha uma cadeira mas ela disse que não conseguia ficar sentada. Disse que não estava aguentando mais, e que fazia tempo que não sentia a bebê se mexer. Pediu água, e depois de 2 ou 3 contrações quis sair do chuveiro. Fomos para a sala e ela sentou-se na bola, dizendo que era beeem melhor que cadeira. Na primeira contração falei para dar aqueles pulinhos na bola, mas depois que a contração passou ela falou que doeu mais, então abandonamos a idéia. Pedi para dar umas apertadinhas e uma balançada na barriga e ver se a bebê reagia, e como ela reagiu bem, fiquei tranquila. As contrações foram ficando mais próximas e mais demoradas - de 2 em 2 minutos e durando 35 segundos. Falei que com 45 segundos seria bom irmos para a maternidade mas ela não quis - "não, é muito cedo, eu quero esperar mais". Fiquei tranquila. Saiu da bola, foi para o sofá, reclamou de calor... quando vinha a contração se inclinava para a frente e para o lado.Falei que quando começasse a me xingar saberíamos que estava perto e ela respondeu com um olhar doce: "eu não vou te xingar!". Quis ir para o quarto, o que se provou quase uma intuição pois logo em seguida uma vizinha chegou. ("O que que ela veio fazer aqui?!!!") Levei o som para o quarto, fechei a porta e ficamos lá escutando música, contando contrações e relaxando entre elas. Nessa altura ela não queria mais massagem na lombar, reclamou que doía. Continuei apoiando e ajudando a relaxar os ombros e o pescoço entre as contrações. Ela falou que estava dando vontade de fazer cocô durante as contrações e uma luz vermelha se acendeu na minha cabeça. É hora de ir.- "Eu não queria ter que ir..." (achei que ela ia chorar). Expliquei que sentir vontade de fazer cocô só durante as contrações é sinal de que está muito perto. Ela concordou e fui avisar a mãe. Elas ainda tinham que ir buscar o carro da vizinha. Quando voltei pro quarto veio uma contração mais looonga. Ela gritou: "Não está passaaaaandooooooo. Porque não está passaaaaaandoooooooooooooooo?! AAAAAAAAAAAAAAAAAi" E afastou as pernas! Juro que pensei que ia nascer! Cheguei a olhar prá ter certeza. Depois que passou ajudei a vestir o vestido e fomos lá prá fora. O carro demorou e vieram mais contrações. E quando o carro chegou... o caminho, as contrações, os buracos, a dor... Cinco ou seis minutos que pareceram horas. Adriana pediu que parassem o carro durante a contração mas não quiseram nem saber disso. Todo mundo falava: "vai nascer, vai nascer"... tentei acalmá-os dizendo que ainda demoraria um pouquinho, e pensei: "se nascer no carro vai ser uma méééér...!" Chegamos. 07h30 Adriana entrou na frente, e já vieram com cadeira de rodas: "nada disso, eu não consigo sentar, dói demais, EU VOU ANDANDO." Como ela já conhecia o caminho foi indo, e não tiveram outra opção senão segui-la de perto, mas com as caras mais contrariadas do mundo. E a vizinha, tão solicita tentando ajudar: "já falou que a bolsa estorou às 3?" Nããããããão! Foi às 6! não... foi 6 e meia! (Adriana teve medo que a dilatação ainda estivesse pequena, e se fosse esse o caso ela queria ter mais tempo, por isso mentiu a hora em que a bolsa se rompeu.) - "Já ligaram para o médico? NÃO?! Pq não?!"- Pq o médico falou que não era prá ligar, era prá vir prá cá primeiro.- "Ah... mas vcs TINHAM QUE TER LIGADO!"Bom... na terceira vez que falaram isso minha língua escapou ao controle: "se a gente não for confiar no médico...". Aí pararam. Um capítulo à parte: chamavam ela de filhinha! Porra, isso é pior que mãezinha! E tudo que eu queria ter na hora era uma filmadora prá vocês verem a cara de surpresa daquela que fez o toque! Os olhos se arregalaram, o queixo caiu! Os dedos foram afastando, afastando... meu coração deu pulos de alegria! Deu certo! Ela chegou com 9cm de dilatação. Nove! Pensei que não ia mesmo dar tempo de fazerem nada... E tentei ajudá-la o máximo que pude.

Enf: "Mas e a depilação? Não vai depilar?! Mas é mais higiênico!!" Insistiram, insistiram... e Adriana se rendeu: "tá depila logo, mas cuidado! Não vai me cortar heim?" A enfermeira levantava a barriga dela prá depilar até em cima, e ela reclamava que aquilo doía muito. Tentei fazer umas piadinhas diante do inevitável... e no final não aguentei: "vai ser parto normal, pq tem que depilar tanto prá cima?!" A enfermeira ficou P da vida e parou, jogou a gillete na pia e falou: "Fiz o que pude! ele que se vire depois com os pontos!" Pensei que iam me por prá fora, pensei: "Vânia, cala a boca já!" Adriana pediu prá levantar, e eu ajudei. Tinha uma auxiliar lá: "mas você não pode ficar de pé! e se o neném nascer?!" Olhei prá ela e falei: "bom, aí tá tudo resolvido né?!" e pensei : "Vânia, cala a boca já!"

No corredor a enf. ligou pro médico: "a bolsa rompeu às 3, não... 6, não... 6 e meia... tá em 9 cm com rebordo na volta inteira" E a Adriana: "fala prá ele que sou aquela que quer parto de índia!"Enf: - "É aquela que quer parto de índia, não quer que depile, não quer ficar deitada... ela só quer ter o bebê!!! Haaaaaaahahaha..."

No quarto, Adriana tomou água várias vezes. Elas diziam: "NÃO PODE" e ela dizia que só ia molhar a boca, ia lá e tomava vários goles. Quando o médico chegou estávamos abraçadas perto da janela, ela estava tendo uma contração. Pensei: "deve ser uma cena linda, mas eles não têem olhos de ver..." Ele a chamou de mulher: "Vem cá mulher que eu tenho que te examinar". Pensei: "caramba, mulher é bem melhor que filhinha, agora estamos bem!"No toque: 10 cm com rebordo anterior, e na auscuta do coração da Sofia, tudo ótimo. Ele tirou o rebordo com a mão, ela gritou prá caramba, e já pudemos ir prá sala de parto. No caminho alguém observou que ela estava tão tranquila, nem parecia que ia ter filho. Me encaminharam prá trocar de roupa. Adriana parou na porta da sala de parto e fingiu que estava tendo contração prá me dar tempo de chegar, e aproveitou para dizer que não ia subir na mesa. Quando acabei de me trocar o médico estava na porta, esperando prá pegar toucas e máscaras, e me falou: "convence sua amiga a subir naquela mesa senão vamos ter que tomar uma providência". Bom... eu amarelei. Uma quantidade enorme de absurdos passou pela minha cabeça. Quando cheguei ela andou até a mesa de parto, apoiou as duas mãos e falou: "EU NÃO VOU SUBIR". E eu a abracei e falei: "Dri, estamos em um hospital, e não temos alternativa". Ela suspirou... E perguntou prá mim: "e se a gente fizesse agora uma anestesia?" Respondi mansamente: "não dá mais tempo Dri... você vai conseguir, você aguentou até agora, o pior já passou..."Nós deixamos o médico fora de cena! Putz... Ela subiu na mesa e colocou as pernas nos estribos. Não foi amarrada.

E então mais toques, ele dizendo que o bebê estava alto ainda...a preparação prá episio que ela percebeu...- "VOCÊ FALOU QUE NÃO IA CORTAR" - "Mas se eu não cortar depois você vai ter que fazer uma cirurgia prá por as coisas de volta no lugar e vai ser muito pior"."QUANTOS PONTOS VC VAI TER QUE DAR? A enfermeira respondeu: "ah... uns dezoito...por dentro! Haaaaaahahahah"Adriana quase chorando: "Vânia ele falou que não ia cortar!"- "Dri, muitos médicos dizem que não vão fazer cesárea e fazem!"E isso a acalmou...

Veio outra contração. A mesa estava na horizontal, o médico dizendo que daqui a pouco iam inclinar... Adriana então inclinou-se sózinha, ficando com os cotovelos dobrados e apoiados na mesa, e eles deram um travesseiro que eu dobrei e coloquei sob as costas dela. Aí veio a enfermeira e disse: "VC TEM QUE SEGURAR AQUI!" e esticou o braço dela derrubando-a deitada na mesa. O grito foi horrível. Enquanto durou a contração Adriana puxou o braço de volta e conseguiu ficar inclinada. Mas depois que passou eles falaram tanto que ela TINHA que segurar nos ferros prá conseguir fazer a força direito... ela foi experimentar, e eu não percebi que por baixo do campo, depois disso, a auxiliar ficou segurando o cotovelo dela prá que ela não conseguisse mais dobrá-lo. E nessa hora Adriana ficou com muita raiva... e as contrações desapareceram.

Aí puseram soro prás contrações voltarem, ficaram falando que ela fazia força errado, que não ajudava... que onde o bebê estava parado não podia ficar...O médico enfiava as mãos, me dava a impressão que ele estava tentando puxar o bebê. Ela me olhou com os olhos vidrados de dor e falou: "Vânia isso que ele tá fazendo dói demais!" e eu respondi: "eu sei... eu lembro..."Ele ordenou a kristeler, e enfermeira fez... algumas vezes... uma cena horrível... e Sofia nasceu. Ele cortou o cordão imediatamente e entregou pro pediatra. Adriana me olhou preocupada: "pq não chorou, deu alguma coisa errada?" -Não Dri, ela tá começando a respirar, e logo vai chorar. Tiramos o médico de cena pela segunda vez!

E logo a Sofia chorou. O médico falou prá mim: "vai lá ver!" Balancei a cabeça negativamente. (Não gosto de ver o que fazem com os bebês. Passo mal...). Abracei a Adriana e fiquei falando baixinho com ela... "vc conseguiu, parabéns!..."A enfermeira perguntou alguma coisa e o médico respondeu: "não sei, pergunta prá chefe aí" e fez sinal na minha direção. Minha cara caiu! Olhei prá ele e dei o sorriso mais sedutor do mundo... por baixo da máscara! : P

Ele sorriu de volta e respondeu a pergunta dela. Depois que a placenta saiu (foi tracionada mas não arrancada), ele pediu "a boneca". Adriana olhou prá mim com cara de interrogação e eu respondi: "não sei..."

- O QUE QUE É BONECA? -
- "Mas tudo essa menina quer saber! Depois eu te mostro o que é a boneca!
- "EU TAMBÉM QUERO VER A PLACENTA! CADÊ A PLACENTA?"

Olhei prá ele e falei bem mansinha: "tenho um monte de amigas bravas assim... vou mandar todas pra você porque você é muito bom!" E ele: "nããão, peloamordeDeus! Eu não mereço."

Ficamos todos dando risada. Adriana recebeu os pontos da episio, e ele falou: "agora vou fazer o parto da boneca. Olha aqui." e puxou um bolo de gase que estava colocado na vagina prá estancar o sangramento enquanto ele dava os pontos.

"E A PLACENTA, CADÊ A PLACENTA? EU QUERO VER!" ... Ele mostrou, e mostrou um lugar mais grosso com uma formação meio arredondada, dizendo que ali tinha começado a se formar outra placenta. (?) Ela pediu prá colocar a mão, queria tocar na placenta... ele deu um suspiro de resignação e deixou. Vieram com a Sofia, mostraram de longe prá Adriana, que só pode esticar o braço e tocá-la com as pontas dos dedos, e já levaram embora. Veio o pediatra e falou que estava tudo bem e que ele voltaria à tarde.

- "O SENHOR NÃO DEU A INJEÇÃO NÉ?"
- "Não. Em xx anos de medicina nunca dei e nunca tive problemas. Até acredito que num parto prematuro ou traumático pode ser necessário, mas nesse caso não."
- "ISSO MESMO! OBRIGADA POR FAZER O QUE TINHA SIDO COMBINADO!"

TÓIN!

Logo fomos todos pro quarto. Sofia ficou em observação (por rotina, não por necessidade). Fiquei mais um pouco por ali, e depois fui trocar de roupa. Na saída as enfermeiras me enquadraram:

- "Você já trabalhou em hospital?"
- É... já trabalhei em unidade de queimados e em UTI...
- "Onde?"Em Uberlândia... e depois em Campinas...
- "Ah..."

Acho que ficaram satisfeitas. A mãe da Adriana esteve presente o tempo todo, e muito respeitosamente. Ela tinha combinado que ia sair de casa quando o TP começasse, que iria pro shopping, mas domingo de madrugada o shopping tá fechado! Então ela não saiu, mas ficou no quintal, e só vinha quando era chamada. Lá na maternidade, depois do exame de admissão ela foi encaminhada prá recepção prá fazer a internação, e quando chegou de volta a Sofia já tinha nascido. Adriana ficou internada dois dias, porque na segunda à tarde, quando o pediatra passou ele achou que a Sofia estava chorando demais, e pediu prá elas ficarem lá mais aquela noite. Tiveram alta na terça de manhã. Não foi o melhor parto que poderia ter sido, mas foi O PARTO. Adriana suportou heróicamente as intervenções, escapou de algumas, e lutou tudo o que pode. Esse relato pode parecer muito longo, mas se eu fosse contar tudo o que escutamos da enfermagem seria muito maior. E Adriana, apesar de tudo isso conseguiu! Como bem disse a Ingrid, é triste que uma cena de parto se transforme numa luta de boxe! E a impressão que Adriana ficou, de que a sala de parto se parece com uma sala de torturas é verdadeira. É importante que tenhamos consciência disso: não importa o quão grande seja sua capacidade de luta, se a equipe não é humanizada eles vão te enquadrar!

A favor do médico posso lembrar que Adriana estava com placenta em grau 3 já havia algum tempo, e diante disso muitos médicos teriam pressionado em direção à cesárea. Ele não fez isso. Fez a episio, e agora eu entendi o que algumas pesoas já tinham tentado me explicar: ele aprendeu assim e não sabe fazer de outra forma. Se tivesse aberto mão da episio mas feito aquela kristeler daquele jeito, provavelmente o resultado teria sido desastroso.

Fico muito feliz de ter participado dessa história, de ter ajudado, e de agora ser honrada com a amizade de Adriana: mulher guerreira, que informou-se, fez suas escolhas e batalhou por elas até os 42 minutos do segundo tempo.

Beijos, paz e luz.
Vânia Bezerra - recém-nascida como doula em 11.09.2005

3 comentários:

  1. Por muito tempo me senti culpada por algumas coisas que não consegui ajudar a Adriana a evitar. O que mais me doía era ter "amarelado" quando o médico, de certa forma, a ameaçou. Também me sentia culapda por não conseguir ficar de boca fechada quando a enfermagem dizia aquelas coisas, como: "você precisa ficar deitada, senão o neném vai nascer!". Hoje em dia consigo ficar calada, mas meus olhos "falam". Rsrsrs... por mais que eu tente, não consigo deixar de ser eu mesma! Mas já consigo prestar mais atenção às coisas que eu consegui!Eu consegui ajudar a Adriana colocar seu nome no meio das 104 que tiveram partos normais naquele ano, contra cerca de 1200 cesáreas.

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  2. Dei risada no inicio do relato, chorei mais p/frente, fiquei revoltada pela falta de humanização das enfermeiras....
    Mais o relato esta lindo..... bem detalhado, e o mais importante Adri conseguiu e com certeza vc tem grande culpa nisso =D
    Infelizmente eu fui mais uma vitima dos medicos cesarista!

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    1. Oi Kaka. Espero que estes relatos continuem sempre as gestantes a perceberem que podem mudar várias coisas fazendo escolhas e lutando pelas suas opções. Se quiser falar sobre a sua história fique a vontade para me escrever: vaniacrbezerra@yahoo.com.br

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