Quem sou eu

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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Quando a noite passar...

Doulagem especial, com gostinho diferente, super importante.

A moça me ligou já na reta final da gestação e me contratou como doula. No primeiro dia que fui à casa dela emprestei o carro da minha irmã e atravessei a cidade... quando cheguei na entrada do condomínio pediram a minha carteira de motorista e só aí eu percebi que estava sem a carteira. Liguei pra casa e pedi pro maridão trazer meus documentos, voltei até o meio do caminho para agilizar... resultado, cheguei na casa dela super atrasada... aí conversamos, assistimos um vídeo... de repente o marido com a maior delicadeza e diz assim: "olha, a conversa tá muito boa, mas vcs sabem que horas são"?!

Imagina nosso espanto ao saber que eram quase 11 da noite!

Voltei outro dia para conversamos mais um tantão... e aí, numa bela manhã o marido me ligou dizendo que ela já estava com contrações e já queriam que eu fosse para lá. Como a decisão de procurar informações sobre o parto natural tinha sido tardia, não deu tempo deles assimilarem algumas coisas. E me lembro perfeitamente que a principal dúvida era sobre a segurança da anestesia, e sobre a peridural não ser praticada em São Carlos. Não entendiam como isso é possível.

De qualquer forma, a moça nunca tinha ficado doente a ponto de precisar de uma intervenção maior do que tomar alguns comprimidos... nunca na vida tinha sido internada, nem tomado soro, nada, nada, nada... então ela tinha um certo temor de enfrentar o desconhecido.

Quando isso aconteceu meu marido tinha ido para o Amazonas e eu estava sózinha em casa. O filho só ia pra escola à tarde. Tive que ir até a escola da minha sobrinha, tirá-la da aula e levá-la pra casa para ficar com o meu filho. Dei $ pra eles irem na padaria no final da tarde comprar ingredientes para fazer um lanche, autorizei almoçarem miojo, chamei um táxi e fui para a doulagem. Podem imaginar o quanto isso tudo demorou... quando chegamos no condomínio o marido estava me esperando do lado de fora da casa, um pouco ansioso.

Entramos. A moça estava muito bem, tranquila, sorridente, conversando... tirou algumas dúvidas. Eu espalhei meus apetrechos para quando fossem necessários e fiquei por ali. As contrações ainda estavam um pouco distantes, ela aceitava suco, andava, mantinha-se ativa.

Na hora do almoço o marido saiu e voltou com quentinhas especiais que foi buscar no restaurante dentro da universidade federal, onde eles almoçavam todos os dias e sabiam o cardápio decor. Almoçamos, conversamos... e as contrações foram ficando um pouco mais fortes mas ainda não mais próximas... a tarde caiu, a noite chegou... 





Meu telefone tocou e era meu marido, que estava sem família lá nos cafundós da Amazônia. Pedi licença ao casal e saí no quintal, conversei durante algum tempo, olhando a lua que estava enorme no céu.


Tarde da noite a moça começou a ficar desconfortável, não conseguia mais ficar deitada durante as contrações, mesmo estando muito cansada. Ajeitou-se na cadeira de balanço, com várias almofadas  para ficar bem confortável e quando vinha uma contração eu e o marido ajudávamos a abaixar as pernas do banquinho e inclinar o corpo para frente, e eu fazia massagens nas costas.

Um pouco depois, após tirar vários cochilos nos intervalos entre as contrações, ela quis tomar um banho e assim fizemos: água quentinha caindo nas costas, apoio incondicional, e espera tranquila. Mas a moça não estava mais tranquila. Estava ficando agitada e muito brava, mas não aquela braveza que é do final do TP e que faz a mulher colocar os pontos nos is e corrigir o que não está ajudando. Ela estava brava com o parto, estava brava porque queria dormir, porque não estava lidando bem com a dor e sabia que não tinha a peridural como uma possibilidade. No meio dessa braveza ela desistiu e deixou claro que não queria mais brincar, queria cesárea. Era pouco mais de 3 da manhã, e eu sabia que o anestesista daquele dia não ficaria feliz em poder ajudar uma mulher em TP no meio da madrugada. Então... uma contração de cada vez, com muita calma, colocamos como objetivo esperar o dia amanhecer. E assim foi feito.

Às 7 da manhã nos encaminhamos para a maternidade, o exame foi feito, ela estava com 5cm de dilatação e ainda haveria um longo caminho a percorrer, mas ela queria o atalho e assim foi feito, com equipe respeitosa, incluindo o anestesista, que naquele dia era do tipo que não vê problemas em mulheres que não agendam cesáreas por considerar essencial pelo menos entrar em TP.

Após a cesárea e após ela estar de volta ao quarto e sentindo-se bem atendida, o marido ainda me levou para casa, apesar de eu insistir que não era necessário, e fez questão de frisar como achou valioso o trabalho de doula, pois isso garantiu a ela o direito de tentar, sem qualquer tipo de pressão ou julgamento caso desistisse. De minha parte, concordo inteiramente com uma colega doula que falou por estes dias: "definitivamente eu sou doula da mulher e não do parto!". Se a peridural estivesse disponível, aí a conversa seria em outros termos. Mas o parto natural é uma vivência intensa demais para ser obrigatória para as mulheres que não a desejam com todas as suas forças. Não quero nem pensar em alguém que depois vai ficar o resto da vida lembrando em como sofreu para colocar o filho no mundo e possivelmente vai falar isso para a criança mais cedo ou mais tarde.

Sou contra cesáreas feitas com argumentos falsos, sou contra médicos que convencem suas pacientes de que a cesárea é melhor que parto, mas também sou contra exigir que uma mulher passe por um parto natural se ela não está afim.

Então, assim foi essa doulagem. Linda também, por que lindos são todos os nascimentos promovidos com respeito pela família. 




quinta-feira, 16 de agosto de 2012


POLIANE, CHRISTIANO E  MICKAEL – SETEMBRO DE 2010
Eu e Poliane nos conhecemos nas reuniões do GAPN. Ela percebeu que seu médico não passava informações sobre o parto, com aquela famosa desculpa de ser cedo demais para falar sobre isso. Dizia inclusive para ter cuidado com o grupo, já que lá eles faziam lavagem cerebral nas moças. E os meses foram passando... e ele fazia outras afirmações estranhasE então ela trocou de médico, passou a ser ainda mais assídua nas reuniões e me contratou como doula.

Plano de parto - recomendado pela OMS!
Ir a casa dela para as reuniões de preparação para o parto era muito gostoso. Morávamos a poucos quarteirões de distância e as tardes passavam de forma muito tranquila. Ela tinha comprado livros sobre parto, lia muito e comentava os relatos e informações que encontrava na internet. Ela e o esposo inclusive participaram de uma oficina de parto. Na sequência passamos a aguardar o início do TP.




Nesse meio tempo apareceu uma oportunidade de ir a São Paulo participar de um curso que eu queria fazer há muito tempo. Conversei com ela sobre o risco dela entrar em TP e ela me respondeu que eu podia ir que ela não ia entrar em TP naquele final de semana. Eu fui... e fiquei mandando torpedos para me manter informada. Passou o curso, passou o fds, voltei para São Carlos, e mais uma vez ficamos esperando tranquilamente pelo início do TP.



Ela completou 40s... e completou 41s... e pasmem! Um dia eu encontrei o cunhado dela e mandei a pergunta fatídica: “e aí, esse neném nasce ou não nasce?!” Juro que eu quis morrer na hora em que perguntei isso! Que vontade de me dar uns tapas!



Ele sorriu e respondeu: - “Nasce! Uma hora nasce”!  ... e eu ali, com aquela cara de “não acredito que eu falei isso!!!!!”.





Na consulta de 41 semanas e 6 dias foi feito um exame de toque e a Poliane já estava com 5cm de dilatação. Começou a tomar homeopatia para entrar em TP às 11h da manhã, depois me ligou e conversamos bastante. Ela começou a preparação para a chegada do bebê, fazendo uma arrumação na sua casa... e após algum tempo me mandou um torpedo: “Vânia, acho que não estou sabendo contar esse negócio, acho que está de 4 em 4 minutos mas não está doendo nada!”

Será que a Poliane seria daquelas que quando sentem a dor é porque o bebê já está coroando? É tãâãããããão raro acontecer! Será?

Meu telefone tocou de madrugada. Agora ela já estava com contrações mais fortes e próximas há algum tempo. Enquanto eu estava me aprontando para ir para a casa dela o marido de outra doulanda me ligou dizendo que a esposa estava com contrações de 10 em 10 minutos. Fiquei tranquila, pedi para me avisarem quando estivessem mais próximas, o que poderia demorar muitas horas... e fui para a casa da Poliane.

Mesmo sendo perto da minha casa, meu marido me levou de carro por causa da "pequena" mochila que eu carrego nestas ocasiões. Subi as escadas e a encontrei sorridente. 


Como eu tinha a informação de que ela estava com 5cm de dilatação antes de entrar em TP, a possibilidade dos 5 cm restantes se abrirem com facilidade começou a me rondar e fiquei um pouco insegura. Mesmo assim ficamos ainda por cerca de duas horas em casa antes de irmos para a maternidade. E quando fomos, chegamos rápido. Acho que foi a primeira vez que vi a chamada “onda verde” da principal avenida da cidade. Se você anda a 40Km/h pega todos os semáforos abertos.

Na maternidade, fomos para um quarto no meio do corredor. Não era dos maiores mas mesmo assim cabia a banheira inflável no banheiro. Então ela começou a andar pelo quarto, eu providenciei a bolsa de água quente. Estava tudo bem. O trabalho de parto ainda era só alegria.

A esta altura a outra moça que eu ia doular já tinha ligado, a Tatiana Nagliati já tinha ido atendê-la, e me ligou avisando que também já estavam vindo para a maternidade. Como a banheira da maternidade já estava inflada e enchendo para a Poliane, pedi licença, saí para o corredor e inflei a minha banheira para deixá-la pronta para a outra moça que estava vindo. Auxiliei no que pude e voltei para ficar com a Poli. Daí a algum tempo ficamos sabendo que o outro neném já tinha nascido.

O dia amanheceu, as contrações da Poli deram uma espaçada. O Christiano saiu para resolver alguma coisa, ela deitou um pouco para tentar descansar e acabou dormindo. A pediatra passou para dar um olá e a Poli nem viu. Ficamos conversando baixinho para não incomodá-la.

Veio o café da manhã, veio a água, vieram buscar a bandeja do café... o tempo passando e todos em volta tranquilos. Mas a Poli deu uma desanimada. Conversamos bastante, a enfermeira de plantão ligou para a médica e concordaram em romper a bolsa para estimular o TP. E assim foi feito. Não saiu líquido e ao invés disso saiu uma coisa dourada. Eu e a enfermeira ficamos olhando aquilo e eu não entendi nada... parecia pó de ouro (rsrsrs).

Depois disso as contrações deram uma pequena aproximada e ficaram mais fortes. A Poli entrou na banheira duas vezes e não se ajeitou, não gostou, saiu. 

Esvaziei tudo e tirei dali, e assim a Poli pode ir para o chuveiro. Estava cansada, provavelmente se perguntando porque estava "demorando". Acho que todos ficamos com a mesma expectativa de que seria rápido já que sem entrar em TP ela tinha dilatado 5cm... Fomos conversando, fomos conversando... e aí teve uma hora em que ela pediu para ficarmos em silêncio porque ela queria pensar em tudo que tinha lido e nos relatos dos quais se lembrava. Depois de algum tempo de silêncio, peguei meu celular e coloquei para tocar a música do Lenine que se chama “Paciência”.
“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa...”
Poli começou a se questionar se valeria a pena, a neste ponto a enfermeira, o esposo e eu nos revezávamos dizendo palavras de incentivo. E o tempo foi passando.

E aí ela ficou bem séria... e pediu cesárea.

A enfermeira perguntou se não seria melhor fazer mais um exame de toque para ver se não tinha evoluído antes de tomar a decisão... e ela respondeu que não, nem queria toque, queria cesárea. E era um pouco mais de onze da manhã, horário em que o anestesista estaria quase indo embora, então resolvemos que era melhor dar uma acelerada para não ter que chamá-lo de volta logo depois que ele tivesse saído para almoçar... a enfermeira foi até o postinho chamar a médica e informar que a Poli tinha decidido pela cesárea.

E bem nesta hora veio uma contração e Poli sentiu a vontade de fazer força. Olhou bem pra mim e disse: “eu senti um puxo”! Então eu corri até o postinho de enfermagem e falei para a enfermeira que já estava com a médica ao telefone, então a frase da enfermeira ficou assim:

- “Dra, a sua paciente está pedindo cesárea, está bem decidida, nem quis que eu fizesse um toque para ver se está mais perto de nascer... ééé... mas agora ela já está sentindo os puxos, então acho que já pode vir!”


A Poliane havia se ajeitado sobre a cama, apoiando o tronco inclinado na cabeceira. 


A Dra. Carla chegou sorridente como sempre. 


Avaliou, confirmou que podiam chamar a pediatra e o  rapaz da filmagem que o casal havia contratado. Todos chegaram, o berço aquecido já estava preparado, e assim ficamos em volta dela, apoiando e incentivando. Eu tb estava filmando nessa hora, mas quando achei que ela estava precisando de um toque mais pessoal e mais próximo eu desliguei a câmera deles e fui pra perto da cabeceira, agarrei as mãos da Poli e fiz força junto com ela! (Rsrsrs)

O expulsivo também foi um pouquinho demorado porque o bebê veio com a mãozinha na bochecha. Rodar com a mão no rosto não deve ser fácil!



Quando ele nasceu, todos em volta ficaram muito sorridentes! Foi um parto com um gostinho a mais, afinal, jogar a toalha e vencer a luta no round seguinte a gente não vê todo dia! E para mim, tenho que confessar... com toda a minha experiência, que não é tão graaaande assim, mas eram quase 50 doulagens... foi a primeira vez que eu senti pena da moça! O jeito que ela gemia me cortava o coração. Apesar disso, eu nunca perdi a fé de que a ela tinha forças para vencer a dor, e que esse era o melhor caminho para ela e seu bebê. E podem ter certeza, essa dor a gente esquece! A única lembrança que fica mesmo é da vitória, é o gosto de sair da experiência sem ter na barriga um corte grande e desnecessário.

Bom... provavelmente por causa da mãozinha na bochecha, a Poli teve uma laceração que precisou de pontos. Enquanto isso o Mickael estava sendo atendido pela pediatra, sob o olhar atento do pai, e em seguida colocou sua primeira roupinha de corinthiano!



Fiquei por ali até tudo estar arrumado e todos estarem tranquilos, e então fui para casa, mais uma vez com a sensação de que esse mundo está cada dia mais lindo!

Querida Poliane, parabéns pela garra! Você foi brilhante!
Christiano, parabéns por estar junto o tempo todo, confiante e apoiando, dizendo as palavras certas nos momentos certos!
E Mickael, seja sempre bem vindo a este belo mundo!

Agradeço de coração a oportunidade de presenciar este momento mágico!

Um graaaande beijo!

Vânia Doula.

Foto tirada em dezembro de 2010, antes de me mudar para o Amazonas. Foi bom ter ido...  mas voltar foi melhor ainda!
Adoro esta vida!