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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Larissa, Maycon e Yasmim 28/02/2010

Larissa me conheceu nas reuniões do GAPN São Carlos. Entrou em contato por e-mail dizendo que viajaria aos EUA no final do ano, e queria deixar tudo combinado para quando voltasse de lá, assim começaríamos as reuniões de preparação para o TP. Mas janeiro foi passando, foi passando... tinha quase acabado quando ela ligou. Estivera muito doente. precisamente no meio da viagem aos EUA! Antecipou um pouco a volta e usou blusas de manga comprida para esconder as manchas que apareciam pelo corpo.


Antes da viagem ela já tinha contraído a gripe A. Ficou internada, tomou remédios fortíssimos e melhorou, como a maioria das pessoas que pegaram a gripe e estavam sendo acompanhadas por bons médicos, graçasaDeus! E então, após a gripe, uma doença que se manisfestou na pele... e após alguns dias de investigação veio o diagnóstico: pênfigo gravídico. Uma doença autoimune, que causa muito incômodo, e estando grávida, Larissa não podia tomar a dose máxima de medicamentos. Além disso havia um certo risco de que a doença atingisse a criança.

Quando fui à casa dela pela primeira vez, dia 04/02/10, ela me contou quer estivera internada em outra cidade para o tratamento da doença, e lá os médicos haviam recomendado que ela fizesse a cesárea com 32 semanas, no máximo 34. Mas ela, o marido e a médica haviam concordado em esperar um pouco mais, passando por exames mais frequentes para se certificarem do bem estar da bebê. A cesárea seria feita se fosse necessária.

Larissa sofria de intenso desconforto. Muita coceira durante a noite quase a impediam completamente de dormir. Conseguia cochilar entre um banho e outro. Tomava vários banhos frios durante a noite pois a água aliviava a coceira sem piorar o quadro. Quando ela não resistia e se coçava, novas lesões apareciam... e a doença parecia ser cíclica. Ela às vezes melhorava por vários dias seguidos, a pele começava a clarear... então vinha uma nova leva de bolhas e manchas, a coceira piorava de novo... e no meio disso tudo Larissa permanecia muito calma, e também muito calada. Parecia em eterno estado de meditação, aguentando a doença, a tensão não só pela sua saúde como pela da bebê, a pressão dos médicos do hospital especializado para que fizesse a cesárea.

Pesquisei a doença, e posso dizer sem sombra de dúvidas: nunca rezei tanto por uma doulanda minha. Já tinha rezado por outras doulandas antes: pedindo que o bebê que estava sentado se virasse, pedindo que a moça entrasse em TP antes de 41 semanas pq a família não aguentaria esperar mais... mas esse caso era completamente diferente. Rezei, rezei, rezei, e também coloquei meio mundo para rezar junto comigo.

Fiz uma coisa que não fazia há muito muito tempo, quando eu ainda trabalhava como psicóloga hospitalar na ala de grandes queimados, e depois quando trabalhei no ambulatório de dermatologia antendendo casos de alopécia e de psoríase: o trabalho com imagens. Uma coisa parecida com meditação dirigida, usando a imagem de "cura egípcia". Basicamente envolve o relaxamento e o uso da imaginação com o máximo de detalhamento possível da pele sendo limpa, todas as crostas sendo retiradas, um bálsamo curativo sendo aplicado e uma pele nova e saudável surgindo no lugar. Todas as emoções que surgirem durante o trabalho com imagens devem ser trabalhadas, preferencialmente em terapia. Larissa disse que experimentou certo alívio, mas como eu já disse antes, ela é impressionantemente calada, de modo que é muito difícil saber se ajudou meeeeeesmo. Enfim, eu não poderia deixar de tentar.

Numa quinta-feira à noite, dia 25/02, fizemos, eu e Katrina, uma oficina de parto. Tivemos cinco casais presentes, um dos quais formado por Larissa e Maycon. Lembro que no início eu pedi que os casais se apresentassem, incluindo o nome do bebê e de quantas semanas estavam. Eu doularia 4 desses casais, e 3 deles já estavam beirando as 38 semanas. Ficaram preocupados com a possibilidade de coincidência nos TPs, e nos encontros seguintes todos me perguntaram o que eu faria neste caso. O que ninguém sabia era que além desses 3, a indução do parto da Larissa já estava marcada para o mesmo período. O que ninguém sabia é que tinha mais uma gestante que eu doularia, e que não pode ir à oficina pq o pai dela estava internado em SP. E todos esses 5 bebês nasceram num intervalo de 20 dias, e eu pude doular todos.

Então, voltando... Larissa era minha doulanda com o menor tempo de gestação, mas sua indução foi marcada para a data em que completaria 37 semanas. Com o avanço da gestação era preciso aumentar as doses do remédios, o que implicava também em risco aumentado para a bebê... então Larissa, Maycon e Dra Carla decidiram que já haviam esperado o máximo possível dentro de uma limite razoável de segurança. A oficina foi na quinta, e a indução estava marcada para começar no sábado.

Como sempre, nos casos de indução, combinei que ela me chamaria quando as contrações estivessem começando a ficar frequentes, com intervalos regulares de 5 em 5 minutos. E isso aconteceu no domingo de manhã. Às 8h30 ela me ligou dizendo que a bolsa havia rompido, as contrações estavam ficando mais fortes e os intervalos já estavam um pouco menores que cinco minutos. Então terminei de tomar o café da manhã, peguei meus "apetrechos doulísticos" e fui para a maternidade. Meu marido me levou.

Entrei sem problemas, e os encontrei no quarto grande, onde ficam na maioria das vezes as moças que desejam o parto natural. O banheiro é um tanto maior que nos outros quartos, o que facilita a montagem da banheira inflável. Encontrei o quarto todo preparado, a banheira já montada, a bola de fisioterapia novíssima, recém adquirida pela maternidade do convênio prontinha para ser usada. Nossa! Quanta diferença da primeira vez que doulei nesta maternidade! Graças a Deus! E graças às enfermeiras que participam deste movimento de humanização do parto e nascimento em São Carlos. Um viva às enfermeiras!

Larissa, tranquila como sempre, contou como tinha sido a noite, e estava feliz porque as coisas estavam indo bem.

Fui até a cozinha pedir água quente para colocar na bolsa, já que o TP ainda iria longe e ainda era cedo para lançar mão da banheira. À principio me responderam que não tinham esse hábito (de ficar esquentando água para os pacientes)... imagina se todo mundo resolve ir na cozinha pedir água quente! No dia achei isso meio estranho... rsrsrs... a maioria das pessoas nem faz idéia do quanto uma bolsa de água quente pode ajudar uma mulher em TP... quase um ano depois acho que elas tem uma certa razão. Então, nesse dia, a enfermeira plantonista deu um jeito de arrumar água quente prá mim, e nas próximas doulagens acrescentei aos meus apretechos um aparelho elétrico para poder esquentar água no quarto.

Aí... quando a água quente chegou, coloquei na bolsa de água quente e ela estava furada! Cacetada... parece que teremos que nos virar sem isso certo? Errado! Liguei para a Dra Carla e perguntei se ela poderia passar numa farmácia e comprar outra bolsa de água quente prá mim. R) "Claro, sem problemas"! Moral da história: eu sou uma doula muito sortuda! Quantas doulas deste páis podem ligar para a médica obstetra e pedir um favor desses? Aposto que dá para contar nos dedos!

Bom... tudo isso aconteceu em cerca de duas ou 3 horas. E nesse meio tempo as contrações tinham se aproximado mais, chegando a regular o intervalo de 3 em 3 minutos, quando pode-se dizer que começou a fase ativa do trabalho de parto. Havia uma recomendação de trocar o soro quando isso acontecesse, mudando para uma concentração maior e um pouco mais frequente. Até hoje não entendi bem o que aconteceu, mas alguma coisa saiu errada nessa troca, e as contrações ficaram de repente próximas demais e muito intensas. Coloquei a banheira para encher o mais rápido que pude, e fazia massagens nas costas usando um óleo próprio. Incrivelmente nas costas, na região da lombar não tinha nenhuma lesão na pele dela, de modo que eu podia fazer a massagem sem nenhum receio de piorar o quadro da doença. Assim que a banheira ficou meio cheia ela entrou e continuamos jogando água nas costas e apoiando em tudo que podíamos: eu, a mãe dela - Dona Cláudia, e o marido Maycon.

Dra Carla chegou nessa hora, pouco antes do almoço. A proximidade e intensidade das contrações nos levaram a crer que o nascimento era eminente, e para se certificar a Dra Carla fez um toque, e estava com 6 cm se não me engano. Portanto havia ainda um caminho a percorrer. Então Dra Carla percebeu o erro na frequencia do gotejamento do soro, e pediu que ele fosse retirado e que passassem um soro rápido, puro, pra diluir a concentração da ocitocina sintética que havia sido excessiva. Isso gerou uma consternação na equipe e na família, eu mesma me lembro bem de ter me sentido meio perdida nessa hora. Parecia que não tinha mais nada de errado para acontecer. Mas Larissa não se abalou. Permaneceu calma, vocalizava forte durante as contrações, relaxava nos intervalos, mesmo que fossem pequenos, e aos poucos realmente as contrações ficaram menos intensas e frequentes, voltando à normalidade. Perto das duas e meia da tarde a dilatação se completou, e nesse ponto ela estava já sem o soro, pois elas se mantiveram frequentes mesmo sem ele.

Bem calmamente ela foi transferida para o centro obstétrico. A transferência nesse caso era necessária por não ser uma gestação de baixo risco. Então fomos todos para lá, Larissa sentou-se na banqueta de parto, Maycon ajeitou-se sentado na banqueta que geralmente é utilizada pelo obstetra que acompanha partos feitos da forma tradicional, e a obstetra sentou-se no chão, em frente à Larissa.


imagem ruim por conta da penumbra
A pediatra chegou, e estando o quadro completo passamos a aguardar calmamente a chegada da Yasmim. As contrações vinham, Larissa vocalizava forte, a contração passava. Vinha outra, outra vocalização, e passava. E assim ficamos uma hora.


Foi a primeira vez que levei o celular para dentro do C.O. com uma música colocada no MP3 especialmente para as doulagens. A mesma música que gosto de tocar nas oficinas de parto. Uma música loooonga, com uma mudança forte de ritmo no meio. Uma música que começa bem calma e vai ficando mais intensa, mais intensa... e é tão longa que às vezes a gente pensa: essa música não termina?

Toquei a música 3 vezes.

Uma hora o Maycon olhou prá mim e disse: "não tem alguma toalhinha pra dar prá ela morder"? Quase ri na hora de responder, falei que isso não se usa mais... e ele respondeu: "mas ela tá me mordendo"!

Eita!

Rapidinho pedi prá enfermeira e ela arrumou uma compressa que ficou na mão dele. E ela mordia prá valer. Gritava durante as contrações, jogava o corpo prá frente e aí mordia o que encontrasse ao alcance da boca. Estava perdendo o controle, começou a querer chorar nos intervalos, pensando em desistir. E nessa hora... nunca contei prá ninguém, mas eu não só não consegui ajudar como fiquei morta de medo de atrapalhar. Eu comecei a sentir uma dor horrível que coincidia com as contrações, era uma dor no olho direito que irradiava como uma dor de cabeça, eu sentia como se uma faca estivesse entrando no meu olho e meu estomago embrulhava, eu sentia tonturas. Saí de perto dela várias vezes bem no meio da contração, pq eu tinha medo de vomitar e de desmaiar!

Eu saia de perto, respirava fundo, e melhorava. Aproveitei para tirar fotos.

Era domingo à tarde e o centro obstétrico estava quase vazio, bem diferente da agitação dos dias de semana... mas isso tb fazia que as vocalizações da Larissa chamassem a atenção de todo mundo que estava lá dentro sem ter muito o que fazer... então teve uma hora que se formou uma pequena platéia diante da porta que estava aberta. O que fez a Dra Patricia levantar-se e fechar à porta. Excelente providência.

E vinha outra contração, lá vinha a minha dor de novo, e náuseas. Pensei seriamente em pedir licença e sair para não causar transtornos. E em nessa hora a Dra Carla começou a dizer aquelas palavras esperadas: "ótimo, ótimo, ótimo, continue assim que vai nascer, não desista agora, tenha coragem, vai nascer"...

E nasceu às 4 da tarde do domingo. Yasmim nasceu em excelentes condições.




Larissa teve uma hemorragia um pouco aumentada, provavelmente devido à indução, mas só precisou se deitar bem depois que a Yasmim já tinha sido bastante abraçada, olhada, "paquerada" e estimulada a mamar.

Quando já estava tudo bem eu sai do centro obstétrico, fui comer alguma coisa e tomei um remédio para a dor de cabeça. Melhorei rápido, afinal a dor aguda nos olhos pareciam vir junto com a contrações... acho que nunca vou entender isso!

Uma concessão especial para o caso de Larissa, pelo risco maior de infecção por causa das lesões da pele, Larissa ficou em um apartamento, apesar do plano dela ser coletivo. Uma prevenção, que se converteu também em conforto, muito merecido no caso dela, que tinha ficado tantas noites mal dormidas.

Então... depois de uma gestação nada tranquila, um parto induzido que acabou bem, a amamentação. E mais uma luta a ser vencida, e Larissa não se fez de rogada, e foi atrás de resolver uma por uma das dificuldades. Tirava leite e servia no copinho, mantendo a amamentação exclusiva, ainda que a Yasmim não estivesse propriamente mamando... e um dia seus esforços foram recompesados. Até chorei no dia em que abri um e-mail e Larissa me contou que Yasmim estava mamando no peito há algumas semanas, com quase 4 meses. Que benção! Que determinação!

Por falar em determinação, vejam neste link o relato da Dra Carla:

http://parirenatural.blogspot.com/2010/04/forca-feminina-pode-superar.html#comments

Larissa, doular vc foi sem dúvida uma das maiores emoções na minha vida de doula. Nunca vou saber o que me levou a sentir dor junto com vc, mas seja lá o que for, valeu a pena. Foi uma linda tarde de domingo.

Maycon, parabéns pela força que você revelou nos momentos finais do parto, ajudando Larissa a trazer a Yasmim para o lado de cá da barriga.

Yasmim, PARABÉNS pela mãe que tem, e pela linda família que vc veio integrar.

Um grande beijo a todos.

Vânia Doula.

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Oi Vânia. Como vc está???


Que saudades........ que saudades de gravidez, dos nossos encontros e encontros com a Carla..... foi muito bom relembrar...... pois qdo penso na gravidez consigo pensar nas coisas boas e de como estamos felizes e ainda mais completos com a nossa pequena Yasmin.... e já se passaram 11 meses exatamente hoje. E cada dia vemos como td valeu a pena!!!

Muito lindo o relato!!!! Gostei muito de ler e relembrar..... e agradeço muito a Deus ter pessoas como vc, a Carla e o Maykon me acompanhando e dando força durante a gravidez e o parto!!!! Pois se não tivesse vcs e falassem muito que teria que fazer uma cesária com 32 ou 34 semanas, sem ter um apoio extra, é bem provavel que teria feito e talvez sofrido muito mais com a possibilidade da Yasmin ter que ficar mais tempo no hospital.

Vânia, qdo voltei para o quarto depois da Yasmin nascer percebi que vc não estava bem, mas pensei que fosse somente cansaço, pois foi um tp intenso e demorado, nem imaginei que tivesse sentido algo parecido.... e com certeza nunca vamos saber porque disso.

Mas uma coisa eu sei..... que eu não desisti, pois tive muito apoio, e isso foi fundamental, pois qdo vi que tinham errado na indução pensei muito se não era a hora de desistir ..... já tinha dado muita coisa errada ..... será q não era um sinal..... será q não estava sofrendo tanto à toa... Mas mesmo com td isso sou muito a favor ao parto natural e depois de passar por td aquilo.... se pudesse voltar a trás com certeza não faria uma desne-cesária.

Obrigada pelo apoio!!!!

E se da próxima vez vc estiver por aqui..... vou tentar falar um pouco mais....rsrsrs.

E sobre a meditação .... eu sou um pouco indisciplinada e pensava nela a noite e acredito que tenha ajudado sim, mas pensava antes de dormir não na mesma ordem e nem sempre em tudo q estava escrito, mas sei que nas duas ultimas semanas de gravidez minha pele estava bem melhor, com bem menos manchas.

E agradeço muito a todos que rezaram por nós, pois as orações tb nos deram muita força na hora P.

Bjs e td de bom!!!!

Larissa

Um comentário:

  1. Chorando de ler essa troca de palavras entre vocês.

    Fofas!


    Vânia, sou sua fã, seu trabalho ultrapassa seus ótimos estudos e sua experiência.

    Namastê


    Cláudia

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