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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ana Patricia e Emanuelle - 04/01/2010


Ana Patricia me encontrou durante as reuniões do GAPN. Foi a poucas reuniões, pois sendo diretora de pré-escola e estando já com a gestação avançada, sentia muito sono durante as reuniões que começam já às 19h30. Mas me lembro bem dela no dia em que passamos o filme "business of being born". Ela saiu antes do termino do filme, mas em uma das reuniões na casa dela assistimos o que tinha faltado. Durante a preparação para o parto a Frê participou de uma ou duas reuniões, mas foi bem nessa época que eu e Frê decidimos que não não doularíamos mais juntas, e sim ficaríamos de backup uma para a outra. Isso tinha funcionado bem nos partos da Michele, da Danuza e da Claudia. Assim decidimos que levaríamos adiante este esquema.

Na última vez em que fui à casa da Ana Patrícia para a preparação para a amamentação e primeiros cuidados com o recém-nascido, ela me deu uma cópia da chave do apartamento. Eu sempre dizia para me chamar quando as contrações estivessem começando a ficar próximas, e que quase sempre eu recomendava um banho morno e demorado enquanto eu não chegasse. Por morar sozinha ela me disse que tinha receio de não escutar a campainha, e mesmo que escutasse teria que sair correndo, enfim... me deu a cópia da chave, assim mesmo de madrugada eu entraria sem problemas e ela poderia realmente relaxar no banho, sem ficar preocupada em escutar a campainha.

Alguns dias depois percebi que tinha perdido a chave! Mas que meleca! Fiquei me imaginando chegando de madrugada e tocando a campainha... já ia começar tudo errado! Pensei, pensei, rezei, fiz um pouco de auto-hipnose... dormi. Algumas horas depois acordei e pensei: a chave ficou no banco. Ao passar por uma porta giratória eu tirei todas as chaves que estavam na minha bolsa, e na hora de pegar do outro lado não reconheci a chave que não era minha. Liguei no banco, o gerente confirmou que a chave estava lá. Fui lá buscar e passei por 3 ou 4 pessoas me chamando de Patrícia, pois o nome dela estava escrito no chaveiro... nem me passou pela cabeça dizer que a chave nem era minha! Haaaaaaaahahahaha

Então, entre o Natal e o Ano Novo ela me ligou para avisar que se não entrasse em TP até o dia 04/01 iria se internar para uma indução. Patrícia tinha uma perda gestacional anterior e o fantasma da perda começou a incomodar muito, mais a família pressionando... então ela decidiu que não queria esperar mais que 40 semanas. Conversamos um pouco, mas enfim, aceitei. Cada uma sabe onde lhe aperta o sapato, e não seria eu a abandoná-la nessa hora. Seria uma indução sem pressa, colocando os comprimidos para preparar o colo, e o soro só depois que a indução se mostrasse com alguma chance de dar certo. Isso é que os médicos com quem eu estava acostumada a trabalhar faziam nos casos de indução.

E assim, chegou o dia da indução. Ela se internou bem cedo, junto com a mãe, e eu combinei que dormiria até um pouco mais tarde e depois trocaria de lugar com a mãe dela, pois o dia prometia ser longo. Normalmente eu nem teria ido antes da indução ter "pegado" ou seja, o soro já fazendo efeito e as contrações já ficando próximas. Mas a história pessoal dela me levava a crer que eu não fosse me sentiria culpada depois, por não ter dado todo o apoio que ela queria. E o que ela queria é que eu fosse logo pela manhã. E assim eu o fiz. Apesar de não ser horário de troca de acompanhantes a enfermagem não colocou nenhum empecilho, e entrei sem dificuldades.

No mesmo quarto que ela, do SUS, tinha mais duas mulheres, ambas em trabalho de parto. Uma sem acompanhante, e outra com uma acompanhante que nem se mexia na cadeira quando vinham as contrações. Patrícia estava ainda sem contrações, então conversamos bastante, e um pouco depois eu me aproximei daquela que estava com as contrações mais próximas e doloridas e estendi a mão, que ela agarrou prontamente, e tb tentei ensinar a acompanhante dela a fazer-lhe massagens nas costas durante as contrações, mas não adiantou. Aquela acompanhante tinha no olhar o terror diante de um desastre natural: para pessoas que não estão preparadas, o parto pode se parecer com um vulcão em erupção ou um tornado vindo na sua direção. O olhar dela parecia dizer: eu queria estar em qualquer outro lugar, menos aqui.

Então, ajudei como pude, mas depois disso a moça começou a me chamar quando vinham as contrações, então eu fiquei numa situação muito desconfortável, pois estava sendo paga pela Patrícia para fazer companhia a ela, e na pratica eu estava doulando a outra mulher, e tudo de graça... comecei a achar que tinha feito uma grande besteira em tentar ajudar a outra moça, mas me conhecendo bem eu sei que jamais conseguirei estar com alguém em TP e não fazer nada para incentivá-la. Mesmo que fosse hoje, eu não conseguiria agir de forma diferente...

Bom: chegou o almoço, Ana Patrícia olhou para mim e me disse que eu podia ir almoçar em casa já que ela mesma iria almoçar e dormir um pouco, não havia necessidade de ficar lá lhe velando o sono... aceitei, agradecendo aos céus a solução do meu dilema, e ainda falei palavras de incentivo para a outra moça antes de sair.

Voltei às duas da tarde, e logo depois a enfermeira fez um exame de toque, falou que o colo do útero estava sem alterações e colocou o segundo comprimido. Uma hora depois foi servido chá com bolachas, e ela estava comendo quando o obstetra plantonista passou e falou para ela que ela estava de jejum. Foi até uma cena engraçada pq ela estava com a boca cheia e ficou olhando para ele sem mastigar... aí ele completou: "pode terminar de comer mas depois disso vc está de jejum". Então ela acenou com a cabeça e ele saiu.

Ela olhou para mim com cara de interrogação, e eu expliquei que jejum só pode significar cesárea. Conversamos sobre aceitar ou não aceitar, solicitar alta a pedido... quais seriam os desdobramentos se ele indicasse cesárea? Ela não queria voltar para casa sem seu bebê nos braços, e estava bem tranquila.

No finalzinho da tarde eu sai do quarto para ir ao banheiro. E quando estava voltando o médico estava entrando no quarto dela. Eu acelerei o passo para entrar junto, mas ele apontou para mim, sem me olhar, e disse: "vc fica"! E fechou a porta. Fiquei rindo, me sentindo meio cachorro, imaginando se quando ele saísse do quarto, diria "junto"!

Depois que ele saiu ela me contou que as palavras dele foram:

- "Eu estou decidido a te fazer uma cesárea, e só estou vindo conversar com vc pq é paciente da Dra Carla. Se eu não fizer a cesárea hoje o plantonista de amanhã fará".

Então ela aceitou a cesárea por "falta de dilatação", mas que fiquei bem claro que ela não entrou em trabalho de parto, e essa cesárea não era necessária naquele momento, nem de longe!

Pude entrar sem problemas no centro obstétrico, e fiquei na janelinha. Filmei e tirei fotos.



Quando sai para esperar que ela fosse para o quarto estavam lá fora a mãe dela e o pastor da igreja. Rezamos juntos pela nova vida que estava tendo início do lado de cá da barriga. Muita saúde e paz foram nossos desejos.

Então ela saiu, e perguntou se eu não poderia passar a noite com ela. Bom.. um parto sempre pode demorar 24 horas, então achei que sim, sem problemas! (Levando em conta que eu não doularia mais ninguém naquele mês, então não havia risco de emendar com outra doulagem).

Ela ficou no quarto que tem 4 camas, na cama do canto da parede à direita da porta. É a cama mais longe do banheiro, o que tem implicações tanto positivas quando negativas...

Depois da cesárea, ela já no quarto, e nada da bebê vir, nada da bebê vir... fui lá perguntar, depois alguém da enfermagem veio ao quarto e a Patrícia perguntou... e a resposta: "segundo o ministério da saúde o bebê tem reservas de até 8 horas, portanto é esse o prazo que temos para trazer o bebê para o quarto".

Meu Deus do Céu, nem em mil palavras eu conseguiria expressar a indignação que senti naquela hora. Para mim foi a mesma coisa que escutar: daremos o pior atendimento possível antes de colocar a vida do bebê em risco. Cheguei a responder mansamente:

- Mas se ficamos a gestação inteira escutando que o bebê nunca deve ficar mais de quatro sem mamar, que devemos acordá-lo se ele dormir mais de 4 horas?!

E ela respondeu maquinalmente:- "segundo o ministério da saúde podemos demorar até 8 horas".

O que fazer nessa hora?! Ligar para o Ministério da Saúde e dar queixa de que estão fazendo besteiras em nome deles? Não dá né?

Então às 10h30 da noite, Patricia lamentou ter que fazer isso, mas ligou para a Dra Carla e pediu socorro: já fazia mais de 5 horas que a bebê tinha nascido e nada de vir para o quarto. Cinco minutos depois foi alguém da enfermagem lá garantir que ela estava bem, que não estavam escondendo nada, e pediram que eu fosse até o berçário para testemunhar que estava tudo bem, para acalmá-la. Expliquei que não se tratava de achar que estavam escondendo alguma coisa, só que estava demorando muito para a primeira mamada! Mesmo assim fizeram questão de me levar ao berçário e me mostrar a menininha, que segundo elas, estava na fila do banho, por causa das muita cesáreas feitas no final da tarde.

Voltei para o quarto, e mais ou menos uma hora depois a bebê foi trazida ao colo de Ana Patrícia.



Um detalhe que não posso deixar de mencionar: quando o bebê mama na primeira hora de vida a pega é melhor, o bebê está mais alerta, suga com mais eficiência e faz o vínculo com sua mãe de forma mais tranquila. Patrícia teve muitos problemas na amamentação, e não posso deixar de pensar que foram no mínimo piorados pela cesárea sem motivo e pela demora na primeira mamada. Não digo que é certeza que não teriam acontecido, mas o atendimento ruim aumentou a probabilidade desses problemas aparecerem.

Eis um excelente documentário sobre este assunto:



Passei a noite com elas, e curiosamente a única que estava no mesmo quarto e teve parto normal foi a mesma moça que eu tinha ajudado durante a manhã. E ela infelizmente estava sem acompanhante, e parecia ter raiva da bebezinha dela, como se o choro da bebê fosse proposital sabe? ("Queeeem se atreeeeeve a perturbaaaar o meu soooooono?"). E esse sentimento parecia ter eco na menininha, que chorava muito, e se aquietava assim que qualquer outra pessoa a pegava no colo. Uma situação muito triste de se ver, que mobilizou todas as acompanhantes que estavam no mesmo quarto, de modo que acabamos nos revezando para fazer aquela menininha dormir, assim todas as outras moças tb poderiam descansar.

Me lembro da Ana Patricia também comovida, dizendo assim: "Vânia, ela nem olha pra filha dela"! Pois é... era chocante de se ver.

Bom... passei a noite lá, ajudei em tudo que pude, e até tirei um cochilo no banco/sofá. Não foi tão ruim. Pela manhã a mãe dela foi para lá e eu fui para casa.

Alguns dias depois visitei-as em casa, em Patricia estava às voltas com problemas na amamentação, sentindo muita dor. Levei bananas para as cascas serem utilizadas como cicatrizantes, e tentei apoiar no que estava ao meu alcance. Mais alguns dias recebi uma mensagem dela dizendo que já tinha voltado a amamentar, e estava tudo correndo muito bem. Estavam felizes.

Assim foi a primeira doulagem de 2010. Lances problemáticos, um médico nada humanizado, que se deu ao grande trabalho de trocar algumas palavras sua paciente, mas deixando claro que isso era uma concessão especial por ela não ter feito o pré-natal pelo SUS.

Quanto a mim, fico grata pelo anestesista daquele dia ter me deixado entrar para filmar e tirar fotos pela janelinha, como era o desejo dela. (Mesmo isso sendo um direito garantido por lei federal, e agora também uma lei municipal, há um ano atrás os episódios de descumprimento da lei eram muito comuns). Essa é a única lembrança tranquila que tenho.

De resto, dou graças a Deus pela capacidade que a maioria de nós tem de passar por apuros como estes e sairmos vivos do outro lado, e superamos e continuamos a seguir felizes apesar de tudo. (Sem dúvida seríamos ainda mais felizes se não tivéssemos que superar traumas de nascimento que são impostos pelas rotinas dos atendimentos feitos da forma tradicional).



Ana Patrícia, muito muito obrigada por ter me chamado para estar com você neste dia, em que sua filha veio finalmente lhe fazer companhia.



Emanuelle, parabéns pela mãe linda e batalhadora que você tem. Tenho certeza que nela você encontrará sempre uma grande amiga, de coração e alma.



Um graaaande abraço,

Vânia.
doula, doula, doula a quer doer! rsrrssr

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