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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

domingo, 28 de novembro de 2010

Claudirene, Fábio e Heitor 22/12/2009

Claudirene achou meu folder sobre um balcão, quando procurava viver sua gestação de forma saudável. Me ligou, pediu informações e marcamos um dia para eu ir à casa dela explicar o meu trabalho.

Cheguei, conversamos um pouco... ela estava de repouso moderado e tomando medicamento para evitar o trabalho de parto prematuro. Um remédio que eu mesma tomei quando estava grávida, e me lembro de ter taquicardias horríveis.

Ela completaria 40 semanas no dia 25/12. No jargão médico a data em que se completa 40 semanas é chamada de DPP - data provável do parto. Já foi dito por várias pessoas que essa nomenclatura deveria ser abolida pois gera ansiedade quando a gestação se prolonga por mais alguns dias...

Enfim, as 40 semanas de Claudirene eram em 25/12.

E ela me perguntou: - "Vc não vai viajar no Natal vai?"

R) Com certeza não.

Eu andava numa dureza tão grande que não poderia viajar nem que eu quisesse... rsrsrsr

Conversamos mais um pouco e o Fábio chegou. Fizeram várias perguntas e a certa altura o Fábio fez sinal positivo com a cabeça. Eu estava contratada. Então começamos a preparação imediatamente.

Claudirene contou que no inicio da gestação tinha decidido por parto domiciliar, e chegaram a reformar a casa, pensando no parto. No quintal havia uma área especialmente reformulada, com uma pérgula e uma rede, uma área coberta... tudo muito lindo. Mas... começou o bombardeio: "vc é louca... vai colocar seu filho em risco por um capricho... e se acontece x? e se acontece y"?

Pois é... a cultura do medo! Exemplo: Melhor não ir prá praia pq pode acontecer um acidente!

Sinceramente, alguém conhece uma pessoa saudável que deixa de ir prá praia pq pode morrer no caminho, mesmo com os índices de acidentes nas estradas brasileiras sendo tão altos?

Então... Pq desistimos de ter nossos partos domiciliares?

R) Pq ninguém deixa de ir prá praia, então ninguém vem falar na sua cabeça que vc também não deveria ir. Mas as mulheres desistem de seus partos porque temem a dor, então vem te dizer que vc tb deveria marcar uma cesárea. (Traduzindo: Eu vou ficar muito abalada se você conseguir, então... seria melhor que você nem tentasse...).

Pois é... Claudirene e Fábio já tinham sofrido o bombardeio das pessoas que se deixam dominar pelo medo, e já tinham desistido de seu parto domiciliar.

Enfim, a casa ganhou uma área novinha e muito agradável!

Como gosto de provocar, passei o filme "Birth as we know it". Cenas lindíssimas de partos no mar, com golfinhos nadando em volta. Claudirene ficava emocionada com as cenas, e chamava o filho mais velho, Vitor, para assistir também. Ele assistiu um ou dois partos, mas pareceu não dar muita bola... achou bonito, mas não entendeu a emoção de sua mãe... claro, para as crianças as coisas são naturalmente mais simples... nós é que já complicamos tudo... rs.

Voltei à casa dela algumas vezes, uma das quais acompanhada pela Frê, e depois disso ficamos aguardando o dia em que Heitor teria vontade de nascer.

Claudirene foi a algumas reuniões do GAPN, e me lembro dela na sua cadeira de praia, no dia em que fizemos pipoca e assistimos o filme "The business of being born". Filme chocante que mostra o desastre da confiança cega na tecnologia dura, e sobre como os médicos obstetras chegam a se formar sem nunca ter visto um parto natural durante a graduação ou especilização... O grupo ficou mudo após o término do filme. E eu também! Fiquei congelada com as cenas das mulheres que eram amarradas nos anos do "sono do crepúsculo", quando recebiam dolantina como promessa de ausência de dor, e na verdade perdiam a memória do parto.

Um dia Claudirene me ligou aos prantos porque seu médico não queria esperar as 40 semanas. Pois é... ela ficou tanto tempo tomando medicamento e fazendo repouso para prevenir um parto prematuro, e de repente, na visão dele, não valia mais a pena esperar mais. Seria pela proximidade da data mágica - 25/12?

Ela dizia assim:

- Vânia, ele sabe que eu não quero, ele sabe! Pq mudar agora, tão perto do final?

E soluçava de tanto chorar.

Respondi: Claudirene, é melhor assim. Caiu a máscara antes que fosse tarde demais. Vc vai ter tempo de procurar outro médico.

Ela conseguiu se acalmar. E no dia seguinte me ligou dizendo que tinha marcado uma consulta. E foi à consulta, e chorou muito lá também. Mudou de obstetra. E voltamos a esperar pelo trabalho de parto, com toda calma... o que aconteceu no dia 22/12. Pelo médico anterior ela teria sido submetida a uma cesárea no dia 21.

Me ligou pela manhã, dizendo que a bolsa havia rompido e já estava com contrações. Um pouco espaçadas, ainda bem leves, mas já tinha começado.

Perto das 10h00 resolvi ir à casa dela, levar a piscina de parto, e conversar um pouco. Quando cheguei ela estava sentada na bola, na área de luz perto da sala e da cozinha, e acompanhada por sua mãe. Começou a chorar quando me viu! Me abraçou e ficamos nós duas balançando e sorrindo. Ia dar tudo certo.

Eu, Fábio e Vitor inflamos a piscina utilizando o compressor do carro, e depois passamos pelo corredor rolando aquilo tudo, como se fosse uma enorme bóia. Ajeitamos tudo na área especialmente reformada para o parto, e colocamos para encher, com água da mangueira do quintal. Estava um dia muito quente.

Claudirene andava por ali, e as contrações já começaram a ficar mais fortes. Me lembro bem de uma contração em que ela se inclinou para a frente e apoiou as mãos nos joelhos, e foi inclinando, inclinando... o Fábio correu e entrou na frente dela, segurando-a pelos ombros. Quando passou ela começou a rir muito e disse: "se vc não me segurasse eu ia cair de boca!"


O Fábio colocou música para tocar, e eu coloquei um panelão de água para esquentar, para jogar na piscina quando já estivesse um pouco mais cheia... e o gás acabou. Durante mais uma contração, eu apoiando a Claudirene e o Fábio passando, utilizando sua técnica especial de carregar botijões de gás... e aí quem não parava de rir era eu... (Tá bom, vou contar: até hoje eu choro de rir quando me lembro da cena!)

Comecei a anotar a regularidade e duração das contrações: já estava de 3 em 3. E logo a sobrinha dela passou a ser a minha assistente, anotando enquanto eu apoiava e fazia massagens durante as contrações. Claudirene entrou na piscina assim que o volume de água permitiu. Relaxou um pouco, mas a sombra fez que a água ficasse muito fria... logo desistiu e saiu. Enxugou-se e ficou andando no sol para esquentar. De vez em quando se lavava com a mangueira no quintal. Começou a rir lembrando o tanto que reforçávamos durante as reuniões do GAPN, a necessidade de vencer as inibições. Quem imaginaria uma mulher em TP andando quase nua, no sol do quintal, e de vez em quando se lavando na mangueira? Pois ela estava achando o maior barato.





Hora do almoço, preparado pela mãe dela. Claudirene não quis comer comida, beliscou umas coisinhas compradas especialmente para a ocasião, e tomava um suquinho... Foi tomar uma ducha morninha para relaxar e depois ficou no quarto... eu almocei junto com a mãe dela e as crianças.


Claudirene quis tentar tirar um cochilo, e logo descobrimos que a intensidade das contrações já não permitiam que ela ficasse deitada. Começou a sentir um calor intenso durante as contrações, e eu apareci com o meu infalível leque... ela quase morreu de rir! Ficou lá, sentada na bola, relaxando apoiada no Fábio, e eu abanando.

E então ela começou a dizer assim: "Vaniaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa esse moleque vai nascer aquiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii".

Quando passava a contração eu dizia que era melhor esperar mais um pouco. Vinha outra contração e ela dizia "tem certeza? não é melhor ir para o hospital? vai nasceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeer".

Pensei: segundo parto, primeiro normal... vai que dilata rápido mesmo? Se ela tá dizendo... rsrsrs... melhor prevenir!

Durante a manhã eu tinha enviado um torpedo no celular da Dra Carla avisando que Claudirene estava em TP. Liguei no celular e não atendeu. Liguei na casa dela e quem atendeu me disse que ela não estava em São Carlos. Xiiiiiiiiiiiii... Liguei no outro celular.

Eu: "Oi Carla! Hum... onde vc está?"

R) "Estou em Campinas. PQ? NÃO VAI ME DIZER QUE A CLAUDIRENE ESTÁ EM TP?... PUTZ... Eu acabei de chegar aqui e não vou conseguir sair rápido... E vc costuma avisar só quando está quase nascendo né?

Ai caramba... não era o caso, só dessa vez... mas nós já estávamos pensando em ir para a maternidade...
Na continuidade da conversa ela disse para chamar o Dr. Rogério, e que ela já ia ligar para ele.

Voltei para o quarto, e as contrações tinham mesmo firmado de dois em dois minutos. Esperei um intervalo e me aproximei para falar com ela. Fiz uma massagem na testa, logo acima dos olhos... e falei para ela que a Carla não estava em São Carlos. O Dr. Rogério a atenderia.

Tudo bem! Vamos para a maternidade então. Perto das 13h00, trânsito intenso. E o Fábio calmo o suficiente para acelerar nos intervalos e parar nas contrações. Me lembro que no semáforo da Carlos Botelho ele passou por cima da calçada da floricultura para não perder o intervalo, e parou logo em seguida, para a contração.

Chegamos na maternidade e o Dr Rogério entrou em seguida. Examinou e estava com 7cm de dilatação. BCFs normais. Tudo bem.

Fomos para o apartamento que fica na esquina, bem em frente ao postinho da enfermagem, e lá passamos a tarde: ela, o Fábio e eu. Andamos no corredor, ela usou a bola, eu enchi a banheira, ela ficou bastante lá... e a enf de plantão, Gabriela, vinha verificar o coraçãozinho de tempos em tempos. Tudo bem.

Eu fiquei preocupada pq a barriga da Claudirene parecia fazer uma cintura. Mostrei para a enfermeira, e perguntei:

- Claudirene, vc tinha barriga de tanquinho antes de engravidar né?

- Tinha.

- Bem forte?

- Sim, bem forte.

Gabriela fez sinal que estava tudo bem.

A certa altura a Claudirene falou: "minha barriga subiu".

E eu: hã?!

Claudirene: - "Já estava aqui em baixo, e agora subiu de novo! Pq subiu?"

A dilatação já estava completa já algum tempo. Claudirene ficando muito cansada. O Fábio saiu para comprar um suco e algo para ela comer. Voltou com uma marmitinha de açaí. Ela estava relaxando na banheira e o Fábio servia colheradas de açaí na boca. E Claudirene foi recuperando as forças e a cor.






Saímos para andar no corredor, e demos duas voltas. O Fábio apoiando pela frente e eu fazendo massagens nas costas.

Voltamos para o quarto e ele colocou músicas no celular. A única música de que me lembro é a Africa do Toto. Adoro essa música!

Liguei para a Dra. Carla. Ela já estava na estrada, voltando, mas ainda estava longe. Eram mais de 18h00 já.
- Carla, quanto podemos esperar depois que a dilatação está total para fazer um diagnóstico de desproporção?

- Na verdade não existe um limite definido. A Ana Paula Caldas ficou 5 horas com dilatação total e a Lis nasceu muito bem.

Ok. A dilatação estava completa há 3 horas. Mãe e bebê estavam ótimos. Podíamos esperar mais um pouco.

Daí mais uma hora o Dr Rogério voltou e conversaram. Ele disse que o que chamava a atenção era a altura da barriga e o fato dela estar toda torta para o lado, quando a essa altura seria de se esperar que estivesse centralizada...

Claudirene tentou fazer uma força, mesmo sem estar sentindo vontade, para ver se estimulava o bebê a descer e centralizar. Quando fez a segunda força a dor da contração se multiplicou e não parava mais. Ela começou a sentir dor nos lugares errados: dor no meio da barriga, e a intensidade beirou o insuportável.

Claudirene e Fábio conversaram e resolveram que não dava para esperar mais. Alguma coisa parecia estar errada.

Fui chamar o Dr. Rogério. Falei que ela estava muito cansada e estava doendo no lugar errado, sem intervalos... estava tudo errado.

Então foram para a cesárea. Dra Carla chegou correndo, direto da estrada, a tempo de auxiliar. Equipe quase 100% humanizada. Não fosse pelo anestesista que não deixou nenhum acompanhante entrar. Essa parte foi muito triste.

Ficamos eu e Fábio do lado de fora do Centro Obstétrico, os dois com cara de quem espera notícias de alguém que acabou que sofrer um acidente. Pq cesárea prá mim é isso: acidente.

Voltei para o quarto e fiquei lá, ajudando esvaziar a banheira e colocando as coisas em ordem. Deitei no chão do banheiro e chorei. Chorei como se um parente meu tivesse sofrido um acidente e estivesse na cirurgia. Eu não temia pela vida dela, mas não há como não lamentar.

Fiquei até ela voltar para o quarto, e ela veio chorando. Contando a cena que logo viraria minha velha conhecida, de anestesista que não aguenta esperar dois minutos até a contração passar, e quer porque quer que a mulher se curve e relaxe durante uma contração!

Pois é... entre os médicos, assim como em qualquer outra profissão, existem os maus profissionais... para estes, esperar dois minutos é pedir demais.

Fui embora quando Claudirene começou a melhorar, olhou prá mim e me disse que eu podia ir descansar.

Voltei à maternidade 3 dias depois, numa doulagem surpresa, em plena data mágica: 25/12. E encontrei Claudirene no corredor. Andando, tranquila e sorridente. Contou que o Heitor teve um problema e precisou permanecer internado. E que a pediatra tinha comentado como foram importantes todas aquelas horas em TP pq tanto o problema se manifestou mais cedo quanto o leite dela desceu mais cedo, fazendo tb que a recuperação dele fosse mais rápida. (Fazendo valer a máxima de que nenhuma contração é em vão, e cada gota de ocitocina vale a pena!)

Claudirene voltou a uma reunião do GAPN para contar sua história, e chorou enquanto descrevia seu medo de morrer durante a cesárea e deixar dois filhos, e como teve uma conversa com o marido antes de ir para a cesárea, dizendo a ele que ele teria que dar conta dos dois meninos.

E ela também chorou contando como tinha escutado de algumas pessoas algo como: "viu como não deu certo e vc precisou de cesárea? Você agora precisa rever os seus conceitos".

Esse é o preço que se paga por não ser pertencente à maioria. E a maioria no nosso país faz cesárea com hora marcada, independentemente dos riscos envolvidos para o bebê e para a própria vida. Quando se ousa pensar diferente atraímos uma leva de pessoas que procuram nos colocar de volta no caminho considerado "normal". Claudirene é socióloga. Poderia discorrer sobre isso melhor do que eu. Mas o fato de entendermos o que acontece não nos torna imunes à dor de sermos julgados irresponsáveis.

Assim, aproveito para reforçar mais uma vez: não contem quando quiserem parto normal, e menos ainda se quiserem parto domiciliar. Façam como todo mundo: "Ah, vamos ver na hora, se virar cesárea tudo bem!" Porque claro que fica tudo bem se a cesárea for mesmo necessária, esta parte não é mentira! E evita os falatórios desnecessários na sua cabeça!

Enfim, Claudirene ainda me acompanhou na reportagem sobre o direito do acompanhante, na audiência pública na câmara de vereadores de São Carlos sobre o descumprimento da Lei Federal que dá esse direito às parturientes. E também estava na exibição do documentário da Dra Melânia Amorim.

Eu, como sempre, sinto-me muito grata e honrada por ter feito parte desta história. Uma história de luta pelo direito de ser diferente, e de luto pelo paraíso perdido. No entanto, podemos ter a certeza de que o trabalho de parto fez toda a diferença para o Heitor, e sua entrada nesta vida teria sido bem diferente e mais difícil se tivesse sido sem os abraços das contrações.

Claudirene, obrigada pelo convite.
Fábio obrigada pela confiança.
Vitor, obrigada pela simpatia.

E Heitor,

Espero que sua vida, assim como o seu nascimento, tenha algumas situações onde as decisões não são fáceis e nem isentas de alguma dor... pois os caminhos fáceis geralmente são muito lotados e não tão emocionantes... gostoso é escalar montanhas e ver a vista lá de cima. Sua mãe que o diga!

Beijos a todos!

Vânia C. R. Bezerra



Vejam aqui o relato do parto - nascimento da Ester, que veio em 2011 fazer parte desta linda família.
http://www.vaniadoula.blogspot.com.br/2012/12/claudirene-fabio-e-ester-setembro-de.html




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