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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Renata e Sylvio, recebendo Francisco e Gustavo.

Conhecia Renata quando nós duas trabalhávamos no IPC, já trocávamos ideias sobre o número absurdo de cesáreas e a diferença que isso pode fazer na vida das mulheres que acreditam que realmente tiveram algum problema.

Claro que algumas realmente precisam da cesárea, sem dúvida. Mas em um país onde mais da metade das crianças nascem por cesárea também não restam duvidas de que a maioria foi desnecessária, ou "desne-cesárea" como costumamos chamá-las.

Muito tempo se passou, eu fui embora de São Carlos, e depois voltei... e Renata engravidou, e nos encontramos novamente nas reuniões do GAPN. Pelo face vi o status de Renata: "são gêmeos"! (ela já sabia, já sentia, o exame confirmou). E na reunião do GAPN ela perguntou sobre os riscos de parto gemelar. Lembro como se tivesse sido ontem. A médica explicou com detalhes, fazendo gestos com as duas mãos fechadas para mostrar o risco teórico de que se o primeiro gêmeo estivesse pélvico as cabeças poderiam "enroscar" uma na outra, então, desde que o primeiro estivesse cefálico o parto seria possivel.

No grupo tínhamos informação de dois nascimentos gemelares, um acompanhado pela médica e outro acompanhado pelo médico, este com um detalhe interessante: o intervalo entre os nascimentos foi de várias horas, de tal modo que acabaram nascendo em dias diferentes. Com esse relato de atendimento tranquilo Renata mudou de médico, e durante toda a gestação frequentou as reuniões do GAPN, fez hidroginástica e me contratou como doula. Foi a um encontro do grupo Maternas para ver os slings e fraldas de pano modernas, e também foi a uma oficina de Preparação para a Amamentação e Primeiros Cuidados com o bebê. Durante a gestação Renata ainda fez um Curso de Doula, oferecido pela Prefeitura de São Carlos. Depois disso, nos nossos encontros, perguntei a ela se não gostaria de convidar alguma colega do curso de doulas para acompanhar o parto, numa espécie de estágio de observação. Renata gostou da ideia e chamou a Laura Moratti, que também é mãe de gêmeos. Então fizemos mais uma reunião na casa da Renata e do Silvio, para nos conhecermos (eu e Laura), e nesse dia praticamos algumas posições para facilitar a descida do bebê e algumas técnicas de massagem. Banheira inflável comprada, assim como duas caixas de vit K, totalizando 10 ampolas, para não restar duvida de que seria suficiente.

Assim ficamos prontos, esperando pelo dia em que Francisco e Gustavo decidiriam que já era hora de nascer. Me lembro que uma dia nos encontramos, e Renata falou: "Vânia, eu adoro a cara que vc faz quando olha pra minha barriga!".

Fazer o que né? o barrigão era enorme!  Preciso treinar muito mais a minha expressão "poker face", mas a Renata também é psicóloga! rsrsr Mulher, psicóloga e grávida, praticamente um poço de sensibilidade, e eu tentando disfarçar a cara de espanto. Puro tempo perdido!

Num sábado a Renata me avisou que estava em pródromos: contrações espaçadas, intervalos irregulares e não muito doloridas. A noite passou e no domingo a tarde ela me chamou. Neste ponto os intervalos já estavam mais próximos e a intensidade aumentando. Chamei um táxi que sempre parece demorar uma eternidade para chegar... mas quando cheguei à casa dela encontrei o casal muito tranquilo. Acompanhei as contrações durante algum tempo, e resolvemos chamar a Laura, afinal se a intensão era acompanhar a doulagem não seria adequado chamá-la só na hora de ir para a maternidade. Renata continuava muito tranquila, às vezes se sentava para descansar um pouco, mas levantava quando vinham as contrações, às vezes se inclinava para a frente e às vezes ficava de cócoras. Tinha suquinhos e sorvete pra ela saborear durante o trabalho de parto.

já na Casa de Saúde - usando a bola e concentrando-se
 A cada contração que passava Renata ia ao banheiro fazer xixi. Eu não estranhei porque atribui ao peso da barriga sobre a bexiga, e Renata não referiu ardência ou dor. Ela estava de 37 semanas e 6 dias, o que em termos de gestação gemelar é ótimo! Laura chegou e ficamos com a Renata enquanto o Sylvio foi descansar um pouco, afinal depois do nascimento a jornada seria dobrada. Durante a madrugada as contrações deram uma espaçada, e resolvemos fazer um chá de canela para esquentar um pouco as coisas. O efeito foi ao contrário, e depois de tomar duas xícaras do chá, Renata deitou-se no sofá e dormiu cerca de duas horas. Eu e Laura tb tiramos um cochilo, ela no outro sofá e eu em um colchão no chão. O dia amanheceu, segunda-feira, acordarmos, as contrações haviam praticamente parado. Chamamos o Sylvio, conversamos e resolvemos que eu e Laura iriamos embora. Quando as contrações voltassem nós voltaríamos.

na banheira inflável, com apoio amoroso e concentração.
Descansei a tarde toda, fui a um compromisso em uma cidade vizinha na segunda a noite, e na madrugada de terça-feira Renata me ligou dizendo que as contrações tinham voltado, espaçadas ainda, mas uma das bolsas havia rompido e estava com um pouquinho de mecônio, bem diluído, mas tinham ligado para o médico e ele recomendou que fossem à maternidade para avaliação. Fui também e quando cheguei a Renata já estava no cardiotoco, tinham acabado de ligar o aparelho. Sendo gêmeos são 40 minutos, e a Re continuava tendo vontade de fazer xixi a cada contração, então os primeiros 20 minutos já foram bem longos, ai ela foi ao banheiro, voltou e foram mais 20 minutos.

na banheira inflável, com apoio amoroso e uma luz linda!
Estando tudo bem com os bebês podíamos continuar esperando, mas já não era aconselhável voltar para casa. Melhor ficar e ter o controle dos batimentos cardíacos dos dois fetos feitos a intervalos regulares. Então fomos todos de mala e cuia para o quarto onde os bebês poderiam nascer caso tudo continuasse correndo bem. Amanheceu a terça-feira, a Laura me ligou perguntando como estavam as coisas, falei que estava igual no domingo, e não tinham feito exame de toque pq a bolsa estava rota, então o toque seria evitado ao máximo. Achei que era cedo ainda, mas Laura quis ir, perguntou se podia, Renata respondeu que sim. Ainda bem pq eu errei na avaliação! :) Renata é muito, muito muito mais tranquila do que eu podia supor!

Ficamos por ali, Renata super tranquila, andava, ficava de cócoras, sentava-se um pouco na bola, um pouco no sofá, a enfermeira vinha fazer a ausculta, estava tudo muito bem.

ficando de cócoras durante a contração para facilitar a descida dos bebês.
De repente uma mulher entrou no quarto e ficou olhando muito brava pra todo mundo, eu me levantei e perguntei quem era, ela saiu do quarto e eu fui atrás sem entender nada... era a mãe da Renata. Falou um pouco comigo, estava nervosa, com medo pela filha e pelos bebês, o que eu acho totalmente compreensível. Não estamos acostumados a ver partos, imagine parto de gêmeos... Falei que estava tudo bem, os exames estavam bem, a equipe estava acompanhando, Renata estava bem e os bebês estavam bem.

Voltei para o quarto e eles ficaram por ali, o pai e a mãe da Renata. Depois foram esperar na sala de espera, eu os via quando saia do quarto para buscar alguma coisa.

Dai a pouco Laura chegou e ficou responsável por tirar algumas fotos e se possível filmar o parto.

Perto do meio-dia o médico veio ver como estavam as coisas, e a essa altura a Renata já estava na banheira, com as contrações mais próximas, e sentindo alivio com a técnica de cabo de guerra. O médico perguntou se podia avaliar antes de sair para almoçar, para não ter que voltar correndo, e Renata concordou. O primeiro bebê já estava bem baixo, quase nascendo! Ele então pediu pra alguém avisar a família que ele não iria almoç
ar em casa, e a enfermagem começou a arrumar as coisas para a recepção dos bebês.

Nessa hora houve um imprevisto: nem o pediatra de preferência nem o back-up estavam disponíveis, então a pediatra que estava de plantão na UTI neo-natal foi chamada e ficou no quarto, até que a pediatra back-up do segundo back-up conseguisse chegar. Falando assim parece até engraçado, mas isso fez uma diferença muito grande no atendimento dos bebês, infelizmente... As duas pediatras ficaram juntas por alguns minutos e fizeram comentários do tipo: "nossa que radical!" e "nossa, quanta coragem!" mas a coragem dita em tom pejorativo. Felizmente falavam em tom baixo, de modo que só quem estava muito próximo podia ouvir.

O médico super tranquilo, sorridente, segurando a mão de Renata durante a contração. O marido de Renata junto dentro da banheira, ambos abraçados e trazendo seus filhos pra esse mundo. Uma cena linda!

Francisco nasceu molinho, a pediatra quis pegá-lo logo, de modo que ficou uns poucos segundos no colo de Renata. Foi aspirado (pq o líquido estava com um pouquinho bem pouquinho de mecônio), ficaram segurando o cateter de oxigênio próximo ao narizinho e ele começou a corar mas permanecia molinho.

Renata teve mais uma contração, colocou a mão e disse que estava com a impressão de que a primeira placenta já ia sair. O médico pediu licença, examinou e disse: é o segundo, já vai nascer. A pediatra e a enfermagem colocaram o Francisco mais para o lado no berço aquecido, pra abrir espaço para o Gustavo.

Enquanto isso veio mais uma contração e Gustavo nasceu empelicado (com a bolsa íntegra). Rompeu logo após o nascimento, então não deu tempo de fotografar, mas todos que estávamos lá vimos como foi lindo o nascimento dele também! Mas ele também estava muito mólinho e com dificuldade de estabelecer a respiração, foi aspirado, e logo chegou a encubadora onde ficariam em um ambiente com mais oxigênio. Eles gemiam um pouco, o que demonstrava que estavam com essa dificuldade de respirar.

Vânia        Renata   e        Laura. 
A pediatra então explicou que seriam levados para a UTI, para ficar no oxigênio. Falou que as primeiras quatro horas eram de risco, e que se caso eles precisassem ser entubados ela preferia que já estivessem dentro da UTI pra que isso fosse feito rapidamente. E foram levados.

Fiquei por ali, Laura e Renata conversavam sobre a diferença das experiências. Os gêmeos de Laura também foram para a UTI mas no caso delas ele eram prematuros.

Franscisco e Gustavo tiveram essa dificuldade inicial para respirar, e eu achei que eles ficariam algumas horas no oxigênio e viriam para o quarto. Então fiquei por ali, ajudei a limpar o quarto, almocei, e fui lá ver o Sylvio, que estava na porta da UTI aguardando noticias e com as caixas de vitamina K nas mãos. Conversei com ele e falei que provavelmente quando viessem dar noticias já teriam dado a vit K injetável. Ele só segurava a cabeça entre as mãos, parecendo muito angustiado. É horrível a sensação de impotência nessa hora, de saber que os bebês estão ali do outro lado da porta, e não podemos entrar nem fazer nada a não ser esperar, e os minutos parecem horas...

Voltei para o quarto e dali a algum tempo o Sylvio voltou também. Laura já tinha ido embora. A enfermagem veio trocar a Renata de quarto, iam levá-la para um quarto limpinho. Quando ajudaram ela descer da cama e sentar-se na cadeira de rodas ela ficou muito branca, desmaiou  e teve espasmos, como uma convulsão. A enfermagem ficou socorrendo, eu sai pelo corredor à procura da enfermeira, felizmente ela estava perto, voltamos para o quarto, falávamos com a Renata, e alguém jogava água no rosto dela. Ea voltou do desmaio, mas foi ficando branca e desmaiou novamente. Voltamos ela para a cama, a enfermeira pediu pra alguém chamar o médico, mas todas estavam ajudando em alguma coisa, então eu mesma liguei para ele, direto no celular, expliquei e falei que a enfermeira estava pedindo pra ele vir. A impressão que eu tive foi de desligar o celular e ele abrir a porta e entrar no quarto. pois ele já estava vindo enquanto eu ainda estava explicando a situação.

A enfermagem já havia aplicado alguns medicamentos, ele pediu para aumentar as doses, levantar o pés da cama, e pediu para examinar. O útero não havia "encolhido" como era esperado, e por isso estava sangrando muito. Fizeram massagens enquanto aplicavam os medicamentos, e ela foi melhorando. Foi um grande susto, mas passou. Demorou mas passou.

Já era o fim da tarde, Renata e Sylvio muito cansados, resolveram tentar descansar um pouco, afinal tudo o que podia ser feito já havia sido feito, e só restava esperar. Disseram que eu podia ir para casa.

Em casa me deparei com uma situação nova para mim: muita gente comemorando o nascimento dos meninos, e eu tive que dizer que eles estavam na UTI. Fica uma sensação de festa que não deu certo, a música e a dança foram ótimas, mas o bolo não foi servido, não pudemos cantar os parabéns...

Importante salientar: eles não aspiraram mecônio. Dias depois soubemos que o motivo para permanecerem internados que estava escrito no prontuário era "síndrome da membranap hialínica - relativa a prematuridade". ou seja, eu fiquei tranquila pq sendo gravidez de gêmeos e estando de quase 38 semanas eu achei que os bebês tinham iniciado o processo de nascimento, e estariam maduros para respirar. Mas acontece que Renata estava com uma infecção urinária assintomática, sem nenhum desconforto ou ardência, só com a frequência de idas ao banheiro aumentada, o que no final da gestação é esperado... provavelmente foi a infecção que deu início ao TP e os bebês ainda estavam um pouco prematuros. O que leva à seguinte conclusão: se tivesse sido feita uma cesárea eles estariam com os pulmões imaturos também.

Dai pra frente muitas correntes de pensamentos positivos e de apoio foram feitas. Renata quando soube que ficaria mais alguns dias internada para fazer exames, me pediu livros sobre amamentação e sobre maternagem. Com o passar do tempo soubemos que a saúde dela chegou a um nível preocupante, pois a infecção havia atingido os rins e abalado outros órgãos também, ela precisou receber transfusões de sangue e a alimentação era diferenciada. Da mesma forma os bebês ficaram na UTI por vários dias.

Todos os dias recebíamos boas noticias, até que dez ou onze dias depois finalmente tivemos a alegria de saber que estavam em casa. Finalmente! Feliz feliz  feliz!

Quando fui visitá-los estavam lindos os dois e Renata estava tentando estabelecer a amamentação.

Agora já vão fazer um ano, estão lindos e muito saudáveis, fazendo a alegria da família toda, ao lado do primo João, que é como o irmãozão deles. Os três mosqueteiros, lindos!

Renata e Sylvio, muito muito obrigada pela honra de acompanhá-los nessa hora tão linda em que seus filhos chegaram! Nem tudo foi como o esperado, mas nada tira o brilho de ver uma família amorosa receber novos membros.

Francisco e Gustavo sejam muito bem vindos! Que esse início um pouco difícil que vocês tiveram se transforme em força e capacidade de superação, sempre sempre sempre! Que vcs tenham muita saúde, muitas felicidades e muitos anos de vida!

No dia em que voltaram ao GAPN para contar como foi o dia do parto.
Sou muito grata!
Laura, obrigada pelo companheirismo.

E João, parabéns pela alegria! Você é uma luz na vida dessa linda família!

beijos, beijos, beijos,

Vânia Bezerra.






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