Quem sou eu

Minha foto
São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Chegar às 42 semanas

26/03/2010

Comecei ir à casa dela quando estava com 34 semanas de gestação. No primeiro dia o esposo dela atrasou-se um pouco, e enquanto o esperávamos ficamos conversando. Perguntei a ela no que achava que eu faria mais diferença, e ela respondeu: “me ajudando a esperar mais"Resolvi que seria uma boa idéia assistirmos o episódio do Friends no qual a Rachel passa das 40 semanas e quase explode de ansiedade... e depois o parto também é bem demorado, com a dilatação se fazendo muito lentamente. Então, nosso primeiro encontro versou sobre o fato de que às vezes é preciso muuuuuita paciência.

Fizemos as reuniões de preparação na mesma época em que eu estava participando da mobilização da Rede “Parto do Princípio” pelo respeito à lei que garante o direito a um acompanhante de escolha da parturiente durante o trabalho de parto, parto e pós-parto. Ele é juiz, e lá fui com toda a humildade (traduzindo: cara de pau) do mundo, pedir que ele desse “uma olhadinha” na denúncia que pretendíamos entregar no Ministério Público Federal. Algo assim, como 20 páginas, uma coisa bem básica... rsrsrsr... e ele foi super atencioso, leu, elogiou e sugeriu algumas correções. E no dia 8 de março, dia Internacional das Mulheres, lá estávamos eu e Andréia, minha irmã, junto com a Ju, minha sobrinha, entregando a denúncia. E também panfletamos em frente ao Mercado Municipal, junto com outras militantes da causa. Foram dias muito especiais!

O casal participou da oficina de parto no Espaço Shanti, no dia 25/02. Aquela em que vários casais estavam completando as 40 semanas com as datas bem próximas. Fizemos um dança circular no final, muito bonita. 

Eles também foram à exibição do documentário da Dra Melânia Amorim, numa linda manhã de domingo.

Assim, seguimos com a preparação, e quando fizemos o plano de parto a manifest moça manifestou o desejo de ficar na água o máximo possível, o que eu achei excelente idéia, então levei minha banheira inflável para a casa dela, e lá ficou, inflada, prontinha. E passamos a aguardar o início do TP.

Quando faltavam 2 dias para completar 42 semanas, liguei para conversarmos um pouco, e tive vontade de levar minhas crianças para brincar na casa dela. (“Minhas crianças” são o Felipe, meu filho, e a Laura, minha sobrinha. No melhor estilo de tia meio índia, eu também me acho meio mãe. Felipe também frequentemente a apresenta como “minha irmãzinha”).

Bom... chegando lá os dois pequenos jogaram Wii com ele, enquanto eu e ela conversamos um pouco... e depois eles foram jogar no quarto, não me lembro porque. Quando a Laura estava passando por nós, (ela tinha então 4 anos), pedi a ela que chamasse a bebê para vir brincar também, aqui fora... Laura ficou parada olhando para a barrigão da moça, e depois disse: “tia, ela ainda não quer sair, não adianta chamar”. E foi pro quarto. Fiquei olhando para a moça e começamos nós duas a dar risada...

Mais dois dias = 42 semanas, e mais dois dias sem sinais de TP, então internaram-se bem cedo para iniciar a indução. Como sempre, o combinado era me chamar quando a indução pegasse, com intervalos entre as contrações iguais ou menores que 5 minutos. Ligaram perto das 3 da tarde, e meu marido me levou até a maternidade. Como eles estavam em apartamento, mesmo sendo horário de visitas eu entrei sem dificuldades, e os encontrei caminhando no corredor, sorridentes, os dois. 

Tudo estava se encaminhando bem. Logo lancei mão das minhas técnicas e apetrechos doulísticos, apoiando em tudo que eu podia. Massagens, bolsa de água quente... me lembro de que ela sentia mais desconforto no “pé da barriga” do que nas costas, então colocava a bolsa de água quente na frente da barriga.  Mais tarde coloquei a banheira para encher, e música... eu tocava “Deus e eu no sertão” do Vítor e Léo,  “Cabocla” com Flávio Venturini e Caetano Veloso, e claro, a música de índio que tocamos na oficina de parto.

Dilatação completa, Dra Carla a postos, pediatra também. E 4 horas depois a bebê continuava alta, apesar dela muito caminhar, relaxar na banheira, ficar de cócoras segurando na barra do chuveiro, sentar na banqueta de parto... acabou o plantão da Shirley e ela não foi embora, queria ajudar, incentivava... fomos mais uma vez andar no corredor, a esta altura ela já estava sem o soro e continuava com as contrações próximas e fortes. Parei para trocar umas palavras com a Shirley e estava de costas quando ela caiu. Só vi as outras moças da enfermagem correndo e quando me virei ela já estava sendo levantada. Tinha chovido e uma porta do corredor para a área externa tinha ficado aberta. No chão molhado, ela escorregou e caiu meio de lado, batendo só a lateral da coxa e o braço no chão. Levantou, falou que estava tudo bem e continuou andando rápido, só que no outro corredor que estava bem seco... Foi nessa hora que comecei a me preocupar... ela parecia perto do desespero, o trabalho de parto tinha virado sofrimento, faltava pouco para ela começar a correr pelo corredor. Tive a impressão de que se alguém dissesse a ela para correr 4 km que a bebê nasceria, ela sairia correndo na mesma hora. Seguindo recomendação da Shirley, ela voltou para a banheira, tentando relaxar nos intervalos, e ficando de cócoras durante as contrações.

Fui conversar com a Carla e a pediatra, que estavam no postinho da enfermagem... estava sem idéias, não sabia mais o que fazer para ajudar. Dra Carla foi lá conversar, dizer que parecia mesmo que a bebê era muito grande (como previa o ultrassom: mais de 4Kg), pois continuava exatamente no mesmo lugar de 5 horas atrás. Batimentos cardíacos fetais sem alterações, cesárea tranqüila, com a consciência de que tudo que podia ser feito foi feito. Ficamos então na torcida de que o anestesista de plantão fosse um cara legal, e dessa vez era, graçasaDeus. O esposo ficou junto com ela e eu fiquei na janelinha, filmando e tirando fotos, onde aparecem sorridentes. Lembro de algumas palavras trocadas durante a cirurgia:

ela: - "Na próxima vez não vamos esperar tanto, vamos induzir antes... antes do bebê estar com mais de 4Kg"...
Dra Carla: - "na próxima vez não poderemos induzir... não é seguro depois de uma cesárea".
ela: "ah é"...

Algum tempo depois eu estava perto do apartamento onde eles ficariam, e vi quando elachegou, junto com a bebê. O pai ficou segurando a bebê enquanto a mãe era passada da maca para a cama, e ficamos do lado de fora do quarto. Depois ele pediu que eu segurasse a bebê um pouquinho, para ele atender o telefone... e escutei quando ele disse: -"pesou 3Kg600g". Senti como se tivesse levado um murro no estômago! Meus velhos fantasmas pessoais... senti tontura e pedi a alguém que segurasse a bebê, nem me lembro quem... sai de perto para respirar, com os olhos cheios de lágrimas. Mas consegui me recompor rapidamente e voltei para o meu papel de doula. Não era a primeira e nem seria a última vez que vi uma previsão de bebê de mais de 4Kg se revelar em 3,6, apesar de quem fez o ultrassom ter "garantido" que poderia pesar mais, mas nunca menos! Não existem garantias possíveis, estatísticas são apenas isso: estatísticas.

Quando entrei no apartamento a moça estava chorando. Ficamos, o Daniel e eu conversando com ela. Não tenho medo dessas conversas, tenho muito mais medo quando elas não acontecem. Que fique bem claro, uma coisa é estar feliz pela chegada da filha linda e saudável, e outra bem diferente é não vivenciar o parto perdido e a cirurgia, ainda que considerando-a bem indicada. Ela foi se acalmando, e com a filha no peito e o marido atencioso do lado seus soluços foram cessando.

No dia seguinte fui com meu pai buscar a minha banheira que tinha ficado na casa dela e a encontrei já desinflada e encaixotada, na portaria do prédio. O marido tinha feito isso logo pela manhã.

Mais dois dias e fui visitá-los, ela estava já bem calma, mas às voltas com problemas na amamentação. Saí dali e fui em casa buscar uma ajuda para essa fase, que acabou nem sendo necessária pois com toda a força de vontade mostrada já durante o trabalho de parto, a moça venceu os problemas na amamentação e seguiu em frente, bravamente, como sempre.

Linda família, linda história de persistência, e sempre lembrando: nenhuma gota de ocitocina é em vão. 

A  bebê soube que ia nascer, não foi simplesmente retirada. E é linda, assim como os pais.

Moça, obrigada por ter me chamado para participar deste dia tão especial. Você, sem dúvida foi muito corajosa. Se nem tudo saiu como planejado, ninguém poderá dizer que foi por falta de coragem!

Ao pai, parabéns! Você foi participativo e presente o tempo todo. (Bem lá no fundinho, quando virou cesárea, eu queria que aparecesse um anestesista metido a não cumprir a lei por não concordar com ela... ah, aí eu queria ver!... mas claro que esse desejo não era maior que o desejo que tudo fosse o mais tranquilo possível para vcs, é claro, e graçasaDeus, deu tudo certo, sem necessidade de discussões.).

Bebê, parabéns pela linda família que você veio fazer parte. E se vc ainda não queria nascer... agora sabemos que vc tinha seus motivos certo? (O caput revelou desenvolvimento compatível com 40s2dias, portanto poderíamos ter esperado mais um pouco. Nunca se esqueça disso: vc não é tranquila demais – o mundo aqui fora é que se precipitou. Perdoa tá? Bjs!)

Beijos, beijos a todos, espero que estejam felizes.
Vânia Doula.





2 comentários:

  1. Belo relato, como todos que você escreve.
    Nem sempre as coisas acontecem como planejamos, e precisamos estar preparadas pra isso, lidar com a frustação faz parte da vida, não é?
    Eu mesma não sei como me comportaria em caso de algo sair fora do esperado, já que meus partos foram tão previsíveis (aliás, nem quero saber).
    Bjos querida!
    Helô

    ResponderExcluir
  2. Vania, por favor gostaria que alterasse meu e-mail no grupo gesta bem interior. Graças as reunioes do GAP, após uma cesariana consegui ter meu segundo filho de parto natural, de cocoras embaixo do chuveiro...As reunioes iluminaram minha mente, desmistificaram medos e encorajaram meu marido a participar de tudo. Obrigado!

    ResponderExcluir