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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Marcela, Marcelo e Sofia - 21/09/2008


Marcela me procurou quando estava mais ou menos com 6 meses de gestação. Disse que tinha conseguido meu nome com a Ana Cris, que já tinha lido alguma coisa sobre parto natural e queria o mínimo possível de intervenções.



Fui à casa dela e começamos nossos encontros: eu, ela e o marido - Marcelo, em busca do parto natural. Assistimos muitos filmes, trocamos informações, e o casal foi percebendo que o tipo de parto que queriam seria difícil de ter em um hospital. Começaram também os encontros com a enfermeira obstetra - que gosta de ser chamada de parteira, graças a Deus - e começaram a construir o caminho em direção ao parto domiciliar. Como o tempo aí já era curto, o processo foi um pouco sofrido, mais ou menos como acontece quando um parto é muito rápido, sabe? Para dilatar tudo em pouco tempo as contrações precisam ser bem mais fortes...



No final da gestação ainda fizeram uma tentativa de ter dentro do hospital um parto natural, com um tipo de obstetra de vidro por perto. (Obstetra de Vidro é o título de um livro do obstetra gaúcho Ricardo Jones, e o termo significa, simplificando, que ele fica invisível ou reflete a imagem de quem o olha, e só entra em cena, ou seja, só se torna visível se houver necessidade de intervenção). Infelizmente a tentativa de ter um obstetra de vidro por perto acabou em mais um episódio de stress e frustração, mas também teve seu lado bom, já que reforçou a opção do casal de parto domiciliar.

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Marcela estava tendo contrações desde quinta-feira - espaçadas, mas fortes o suficiente para promover o esvaecimento do colo do útero - sem dilatação. De qq forma a recomendação da Jamile foi para a Marcela ficar mais quietinha, não fazer caminhada nem ir nadar, já que o Marcelo estava viajando e seria melhor se desse tempo dele chegar.



Ok, ele chegou.



Sábado de manhã Marcela me ligou. Gostaria de poder explicar como é conversar com a Marcela por telefone. A voz dela é doce, é calma, é quase um mantra... Exprime com exatidão o modo como ela encara a vida. Então... ela disse que estava com contrações já com algum rítmo, e se aproximando. Eu disse que iria prá lá e ela respondeu: - "Não, não, ainda não... estou avisando só para você saber que será hoje, mas agora eu vou sair prá fazer umas comprinhas, ajeitar umas coisas... depois, quando for a hora eu te ligo... eu estou tão feliz que ela vai nascer num dia tão bonito, temperatura amena, ensolarado... "


Ai que delícia!

No meio da tarde o tempo começou a virar... liguei prá minha irmã, pedi prá deixar o carro comigo porque existi a possibilidade de ter que ir de madrugada, e chovendo... não dá prá ir de moto. Ela trouxe o carro, e ele passou a noite tranquilamente na garagem. Devolvi no domingo pela manhã.


No meio da manhã liguei prá Marcela, ela disse que a Jamile tinha ido lá no dia anterior verificar a dinâmica uterina e os batimentos cardíacos da Sofia, que estava tudo bem...

- "Vânia, esta bebezinha está brincando de deixar todo mundo esperando" rsrsrsr"


Liguei prá Jamile, pedi prá ir junto quando ela fosse novamente fazer os exames, e mais ou menos as 11h00 ela foi me buscar. Chegando lá, feitos os exames, tudo normal, pedi permissão prá ficar um pouquinho. Marcela concordou. Almoçamos uma sopa deliciosa, e já durante o almoço as contrações começaram a ficar mais fortes e próximas. Marcela tinha que se levantar da mesa e eu comecei a fazer as massagens nas costas. A contração passava e nos sentávamos e continuávamos a comer. Também teve chá de canela, eu e Marcelo acompanhando.


Marcela quis ir se deitar um pouco, mas já não achou posição para ficar deitada, tinha que se levantar durante as contrações. Começamos a preparar o cenário. Marcelo inflou a banheira de parto que a Jamile já tinha deixado lá, enquanro a Marcela se ajeitou sentada na bola e se reclinando sobre travesseiros colocados na beirada da cama. Eu levei a bolsa de água quente, e durante as contrações ela "descia" da bola e ficava de cócoras.


Jamile e Camila chegaram mais ou menos as três da tarde. A banheira já estava enchendo, eu fazendo as massagens, e tudo muito muito calmo. Exames tranquilizadores, sempre.


Quando a banheira ficou cheia Marcela foi prá água, e ligamos também um aquecedor no quarto. O dia todo ficou nublado e no final da tarde fazia um friozinho. Marcela pediu água muitas vezes, mas também tomou suco, e alguma coisa com açaí e mel, não me lembro mais... Marcelo trazia o que ela pedia, fazia carinho, incentivava, enfim... um casal lindo de ser ver.


No final da tarde o resultado do exame de toque foi um pouco frustante para a Marcela, que esperava que já estivesse mais diltado, em parte também porque eu cometi um pequeno erro de avaliação e falei demais... mas a Marcela, com sua força e sua doçura superou isso também. Jamile sugeriu que ela fosse um pouco para ao chuveiro, e quando ela saiu da banheira a Camila disse ter sentido cheiro de líquido amniótico. A bolsa tinha rompido.


Em baixo do chuveiro, sentada na banqueta de parto, Marcela teve uma ligeira queda de pressão, e se esforçou para se alimentar. Comeu um pouco do sanduíche azeitonado oferecido pelo marido, mas depois de algumas mordidas abriu o sanduíche o comeu só as azeitonas. Enquanto isso o aquecedor do quarto foi desligado porque o quarto muito quente favoreceria a queda de pressão, e logo ela quis voltar para a banheira.


Começou a se agitar um pouco durante as contrações. E chegou a dizer que não aguentaria se piorasse... Todo mundo em volta incentivando: agora falta pouco.

Eu, Camila, Jamile e Marcelo carregando água quente para manter a temperatura certa. Luz apagada, só a do corredor acesa, quarto na penumbra. Música tocando no laptop lá no outro quarto.

Uma ou duas vezes ela pediu: tira essa música que eu não gosto muito... põe aquela do homem de bem.

Um pouquinho mais agitada, Marcela se afastou na banheira, encostou lá na parede. Jamile colocou as luvas longas. Com uma lanterna eu e Camila nos revezávamos iluminando a cena. E eu filmando com a máquina deles. Marcela começou a chamar: "Vem bebezinha, vem!"

Veio a cabecinha. Todos em silêncio. O tempo certo para a rotação e a próxima contração. Dois pequenos gritos de guerreira. Pareciam gritos de suspresa. E Sofia foi recepcionada nos braços da Marcela, com exclamações de reconhecimento: - "oi bebê!".

Dessa vez eu chorei. Um chorinho gostoso. Inesquecível.

Marcela saiu da banheira com Sofia nos braços, amparada pelo Marcelo. Foram prá cama. No corredor, eu, Jamile e Camila nos abraçamos.

Os telefones começaram a tocar. Domingo a noit é dia de família ligar né? Mais ainda quando sentem que tem alguma coisa acontecendo! Rsrsrs

Jamile examinou e tinha uma pequena laceração. Decidiram não dar pontos. Colocaram gelo, e pouco tempo depois tiveram certeza de que tinha sido suficiente.

Sofia mamando, laceração cuidada, tudo em paz. Marcelo abriu um vinho, e erguemos um brinde à paz. Aos nascimentos em paz, felizes.

Marcelo serviu um lanche, Marcela tomou uma sopinha. E todo mundo ligando prá casa, comunicando o nascimento. Depois limpamos a casa. Quando a gente sai parece que nada demais aconteceu. Mas essa família acabava de entrar para o círculo dos nascidos em paz.

Marcela, guerreira da paz, parabéns pela força.
Marcelo, parabéns pela calma e pelo companheirismo.
Sofia, parabéns pela linda família da qual agora você faz parte.

Beijos a todos, e obrigada pela honra de fazer parte desta história.

4 comentários:

  1. Oi Vânia, que lindo!!!
    você me fez chorar de novo!!
    nossa, depois de quase 1 ano, a gente revive tudo tão intensamente!
    obrigada por nos fazer questionar todos os procedimentos do nascimento hospitalar ... obrigada pela oportunidade maravilhosa de ter nossa bebê - que já está uma sapeca - no aconchego do nosso lar!
    um enorme beijo e MUITO OBRIGADA!!!
    Marcela, Marcelo e Sofia!

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  2. putz... que lindo relato... já conhecia a história, mas é tão diferente ver por escrito... de outro ponto de vista que não dos envolvidos... muito lindo, parabéns a todos os envolvidos!!
    e a marcela também tá devendo o relato, como eu!!!
    beijos a todos!!

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  3. Quando eu estava atendendo este casal na preparação para o parto, comprei o livro do Michel Odent - "O camponês e a Parteira". Livro lindíssimo, tudo a ver com o casal de agricultores, vegetarianos e adeptos da vida simples Graças a Deus. Até hoje ainda não emprestei para mais ninguém!

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