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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde,neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Aquela que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto. Gosto de pensar a doula como acompanhante facilitadora. E o que é educadora perinatal? Aquela que tem formação para dar cursos para gestantes, falando sobre as mudanças no corpo da gestante, desenvolvimento do feto, parto, amamentação, puerpério e primeiros cuidados com o recém-nascido. Atualmente morando em São Carlos/SP. Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566 (16)34137012

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Karina e Dirk dando boas vindas à Glória.

Glórias!
Karina frequentou o Grupo de Apoio ao Parto Natural em 2013, algumas vezes acompanhada pelo esposo, o Dirk. Uma dessas reuniões ficará gravada pra sempre em minha memória: estávamos nos apresentando e o Dirk disse que seu nome era Richard. Eu e Karina ficamos com cara de interrogação. Depois ele explicou que a maioria das pessoas tem dificuldade de pronunciar seu nome, então ele inventou o Richard pra ficar mais fácil!

Rimos muito!

O casal me contratou como doula, e fui algumas vezes ao apartamento que ficava bem no centro. O porteiro era uma figura! Depois da primeira vez eu já chegava rindo porque entrar no prédio era sempre uma aventura. sabe daquelas pessoas que pra morrer de repente leva 6 meses? Então... eu me divertia muito! E então chegava no ap. e Karina me recebia, sempre linda, perfumada, com bolo e café pra acompanhar nossas reuniões. Conversávamos e tirávamos dúvidas. E assim chegamos à reta final da gestação, esperando o dia em que Glória chegaria.

Nesse meio tempo eles compraram uma casa e se mudaram para o bairro. Próximo do centro, uns 5 minutos de carro, mas para a Karina que estava acostumada a morar no centro, isso exigiu um tempo de adaptação.

Karina se aproximou das 42 semanas, o que gerou um pouquinho de ansiedade. A ideia de não entrar em trabalho de parto espontâneo é sempre estranha pra quem se prepara para o parto natural. A abertura para a indução quase sempre envolve estranhamento. Mas Karina entrou em trabalho espontâneo.

As contrações se aproximavam, chegavam a ficar de 5 em 5 minutos, no dia 02/11, e depois iam se distanciando, ela descansava, conversávamos por telefone... permanecemos confiantes de que voltariam quando fosse a hora. E assim passamos o fim-de-semana, até que chegou o momento em que o Dirk enviou-me uma mensagem dizendo que as dores estavam mais intensas e ela estava solicitando a minha presença. (04/11 à uma e meia da manhã).

Então eu fui. Encontrei-a na soleira da porta do quarto, em plena contração, e era uma das fortes. Ela foi se abaixando até ficar em quatro apoios e eu imediatamente pressionei seu quadril com as mãos, auxiliando-a a chegar ao outro lado da onda. Quando passou ela se levantou, expressando muito cansaço. Os dias passados com contrações irregulares estavam cobrando seu preço. (Um verdadeiro treino para as noites mal dormidas que acompanham um recém-nascido!).

Ficamos ali por pouco tempo. As contrações vinham a cada cinco minutos, mas duravam 2 minutos e meio, e eram bastante intensas. Então recomendei que fôssemos para a maternidade, para poder lançar mão da banheira como um recurso de descanso para a Karina, e também para verificar o bem estar da bebê.

Fomos então, e no caminho ela ficou muito brava com  o balanço do carro! Mesmo com todas as contrações fortes ela ainda queria mandar no caminho que Dirk deveria fazer, e praguejou quando ele entrou em uma rua que ela considerava a PIOR de todas as alternativas de rota para o hospital.

Pra quem acha que o trabalho de parto infantiliza as mulheres e as torna incapazes de fazer escolhas sensatas, lhes apresento a Karina! Brava feito uma onça acuada, distribuindo urros e "patadas", pedindo desculpas em seguida e depois ficando brava de novo.

Eu não vejo problemas em parturientes bravas! Vá você ficar noites mal dormidas, com uma dor intermitente e veja quanto tempo vai durar a sua doçura e amabilidade. Experimente entrar no carro (o que torna o desconforto mais forte pois no carro não dá pra ficar de cócoras...), e quero ver quem não vai ficar brava! Eu ficaria!

Enfim, chegamos.
Karina passando por uma contração.

Duas e meia da manhã. Exame de toque inicial de internação, 4 pra 5 cm. Chuveiro, banheira com objetivo específico de descansar e cochilar um pouco, depois caminhadas, marcha no lugar, rebolar, relaxar na bola de pilates. E assim o tempo vai passando e as contrações vão empurrando a bebê pra baixo.

Às 9 da manhã outro exame de toque, pouco mais de 8cm, colo fino, só falta descer! Está funcionando! Vamos em frente! Caminhadas no corredor, descanso na bola, chuveiro, cantando no chuveiro, Elis Regina: "minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos"...

Cócoras durante as contrações para ajudar a descer.

Meio dia mais ou menos e  as contrações começaram a se distanciar, voltando pra 5 em 5 minutos, e às vezes chegando a quase meia hora de intervalo. Encaramos como a trégua para reunir forças do sprint final, uma manobra sábia do organismo. Então vamos aguardar.

Descansando com o apoio do Dirk.
Contrações indo e voltando. No meio da tarde chegamos a pensar na alternativa da ocitocina sintética como alternativa para regular as contrações. Infelizmente a enfermeira plantonista foi contra, falou da beleza do parto natural: "vamos confiar no processo, a gente tem mania de querer acelerar as coisas, cada parto tem seu tempo"...

Às 5 da tarde Karina pediu outro exame de toque, a enfermeira falou como se tivesse aumentado; "está quase 9". Mas as contrações tinham espaçado novamente, depois voltaram, depois espaçaram...

Resolveram tentar descansar, e às 10 da noite me deram $ pra pegar um táxi e ir pra casa, tomar um banho e comer alguma coisa. Foi o que fiz, confiando que me chamariam e eu voltaria imediatamente quando as contrações voltassem a ficar próximas e intensas. Cidade de interior, sem transito de madrugada, é muito rápido ir e voltar. Então eu fui... de táxi até a casa deles, peguei meu carro e fui pra casa, tomei meu banho, comi, e deitei, cochilei meia-hora. Karina me ligou, voltei.

Encontrei-a na sala de espera, olhando pela janela. Ela tinha saído do quarto na ponta dos pés pra deixar o Dirk dormir um pouco , estava andando pelo corredor. Com quase 9 de dilatação, mas as contrações tão espaçadas que davam a ela tempo de sair da concentração, olhar em volta e preocupar-se comigo, me mandando pra casa pra descansar um pouco, e depois com o Dirk. Ela mesma impossibilitada de ter uma trégua? Não... as contrações tinham praticamente parado.

Conversamos, ela se soltou, chorou, soltou algumas travas, respeitou seus sentimentos.

Não me lembro porque voltamos ao quarto, acho que pra pegar alguma coisa, Dirk acordou e me viu no quarto, pulou da cama um pouco assustado, como se tivesse dormido muito, mas não tinha dormido nem uma hora inteira.

Quiseram que eu fosse embora de novo. Insistiram, dava pra ver que eu estava dormindo em pé, eles disseram que ficariam mais tranquilos se eu fosse dormir um pouco. Aceitei. Agora, tempos depois, sinto remorso por ter aceitado, mas foi o melhor que pude fazer naquele momento. Não me lembro se ofereci de chamar outra doula, mas tenho quase certeza de que teriam respondido que não era necessário, afinal as contrações tinham meio que sumido.

Dormi das duas às 6, cheguei no hospital às 6h45, encontrei o casal se preparando pra pedir a cesárea. Tinham conversado bastante durante a madrugada, e as contrações tinham vindo e espaçado novamente mais uma vez. Feito o exame de toque e a bebê estava no mesmo lugar desde as 9 da manhã do dia anterior. O sentimento era de que em todos os períodos em que as contrações tinham ficado fortes e próximas não tinham sido suficientes pra fazê-la baixar. Então o soro com ocitocina sintética faria acontecer o que já tinha acontecido dentro do processo natural. E a bebê não tinha descido. A dilatação estava perto de 9 há mais de 20 horas.

Decidiram-se então pela cesárea. Ajudei em tudo o que pude, fiquei por perto o tempo todo, e essa hora não é nada fácil. É saber que poderia gritar e agora vai ficar quieta... é saber que poderia sentir tudo e agora vai ter que ser anestesiada.

Karina e Dirk entraram então pra receber a Glória, que chegou valente, linda, forte! Como a mãe!



Na saída da cesárea Karina me contou que agora sabia de tudo sobre as melhores academias da cidade, pois esse tinha sido o assunto entre os médicos presentes na cirurgia. Depois de tudo ela ainda mantinha seu senso de humor intacto!

Karina e Glória.
Fiquei por perto até que ela estivesse no quarto, já tivesse amamentado, recebido a visita da mãe e da tia, todas felizes com a chegada da menininha linda, que com o tempo mostrou-se ser dona de uma energia de alta duração, assim como foi no trabalho de parto de 3 dias em que em nenhum momento seus batimentos cardíacos mostraram qualquer indício de cansaço. Glória chegou para nos ensinar que podemos ficar acordados.

Karina, você foi muito corajosa e persistente. Se o parto fosse questão de merecimento pelo esforço físico e mental, você com certeza teria parido.

Vamos voltar ao início da musica?

Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo!
Viver é melhor que sonhar...

Você viveu seu parto de forma intensa e reveladora. Você se abriu até onde foi possível naquele momento.

Glória e Dirk
"Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração"...



Mas podemos re-escrever essa letra, vamos fazer uma nova versão desse clássico, vamos deixar de viver como nossos pais. Não amamos o passado, e conseguimos ver que o novo sempre vem!

Não caímos na ladainha de que se fosse pra ter cesárea não precisava ter sofrido... sabemos diferenciar dor de sofrimento, cansaço de sofrimento... e sabemos que cada contração valeu a pena! Cada contração preparou seu corpo pra amamentar, e também preparou a Glória para chegar bem,  respirar e ser saudável.

Glória seja sempre bem vinda!
Parabéns por cada contração, parabéns por cada hora de entrega, parabéns por ter respeitado seus sentimentos, parabéns por ter sido forte até o fim, parabéns por todas as noites mal dormidas desde então! Tudo valeu a pena!

Um grande abraço, a você, ao Dirk e à Glória!

Sempre grata!

Vânia.









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