Quem sou eu

Minha foto
São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou Doula e Psicóloga. Atendo em consultório na Vila Prado em São Carlos SP. Formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Uma mulher experiente que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto e o pós-parto. Sou doula e psicóloga. Atendendo em consultório particular na Vila Prado em São Carlos SP Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566

terça-feira, 3 de julho de 2012


Ariane em trabalho de parto
Ariane e Augusto – Miguel
Ariane começou a trocar e-mails comigo por volta de julho. Nos encontramos pela primeira vez em agosto, sempre prestando atenção para marcar nos mesmos dias em que ela vinha fazer as consultas de pré-natal com a Dra Carla. Ariane e Augusto frequentavam as reuniões do grupo Samaúma, em Campinas. E apesar de não ter coincidido com um dia de consulta do pré-natal, o casal também fez questão de sair do trabalho mais cedo e pegar estrada para comparecerem a oficina de preparação para o parto, onde mostramos na prática as massagens e incentivos que o companheiro pode fazer, tendo um papel importantíssimo para o bom desfecho do parto.


Os encontros de preparação para o parto, fizemos na casa da mãe do Augusto, e um encontro na chácara, onde planejavam ficar durante o trabalho de parto. Quando eu fui até a chácara, andamos pela casa olhando onde colocaríamos a piscininha inflável, vimos que era melhor comprar um botijão de gás para a eventualidade de precisar ser trocado durante o TP... andamos pela área externa, imaginando como seria passar algumas horas por ali. Conversamos sobre o plano de parto bem ali, na área da churrasqueira, à sombra de belas árvores e flores. E assim, estava tudo pronto para a espera pelo dia em que Miguel desejaria nascer.

Aconteceu em um domingo pela manhã. Eu estava no quintal, regando a jabuticabeira, que estava com uma carga enorme e por causa da seca tinha ficado com os frutos bem pequenininhos... Augusto me ligou às 09h40 dizendo que Ariane estava com contrações desde as 6 da manhã, com intervalos de 20 minutos... mas agora estavam mais próximas: 09h29; 09h34;09h39 – rompeu a bolsa – liquido claro – pequena quantidade de sangue (sinal de dilatação) – 09h42. Decidiram que não iriam para a chácara. Ficaram na casa dos pais do Augusto. E apesar da proximidade das contrações o casal estava super tranquilo. Pediram apenas que eu ficasse a postos. E foi o que eu fiz.


Chamaram às 11h00 e eu demorei meia hora para chegar. Encontrei-a deitada, tentando descansar um pouco. Ariane tinha ficado algum tempo sob o chuveiro – água quente caindo nas costas é muito bom para aliviar o desconforto e ajuda a relaxar. Mas o chuveiro queimou. Então ela saiu, tentou comer alguma coisa e descansar. Mas daí a pouco quis voltar para o chuveiro e então foi para o outro banheiro.

Liguei para conversar com a Dra Carla – eu estava com um pouco de medo, achando que a barriga estava fazendo uma cintura durante as contrações. Não falei nada para o casal. Conversei com a médica e ela me tranquilizou dizendo que o evento é tããão raro... mesmo assim, coma  continuidade do TP eu achei que estava ficando mais acinturado e resolvi recomendar que fossemos para a maternidade. Expliquei que provavelmente a dilatação ainda não estaria muito avançada mas eu não estava sentindo a segurança necessária. Então fomos para a maternidade. Chegamos 13h30.

Enfermeira observando a dinâmica uterina. A bola está sobre a poltrona,
estrategicamente colocada para a  Ariane poder relaxar entre as contrações.
Conversei com a enfermeira e expliquei que achei necessário ir para a maternidade para ter mais alguém observando comigo como a barriga dela ficava durante a contração. Somente uma hora depois, quando as contrações estavam mais próximas e quisemos lançar mão do recurso da banheira, o exame de toque foi feito, e Ariane já estava com 7cm.

Então inflei e enchi a banheira, com o apoio do pessoal que estava de plantão, e assim que o nível da água ficou bom, Ariane foi para lá. E assim passamos mais uma parte da tarde.

Descansando. Não há pressa!
Às 16h30 o Augusto foi até a padaria e trouxe lanches para ele e para mim, e coisinhas para a Ariane ir “beliscando”, e mais coisinhas para ela comer depois que o Miguel já tivesse nascido. Assim, renovamos as energias e continuamos confiantes.


Lindo o vídeo da participação ativa do Augusto, fazendo massagem nas costas da Ariane durante a contração - e no detalhe: não é necessário ficar de jejum! Adorei!

E o tempo foi passando... e começamos a olhar o relógio mais vezes... estávamos passando por uma onda de cesáreas – tinham sido 7! Infelizmente a gente começa a pensar coisas do tipo: será que mais uma vez vai acabar em cesárea? Dra Carla resolveu solicitar uma segunda opinião. Tinhamos lido alguma coisa sobre os benefícios de dois médicos avaliarem a situação. Ela saiu para procurar o médico.

E bem nessa hora... Ariane mudou de posição dentro da banheira e começou a sentir vontade de fazer força. Abriu bem os olhos, olhou pra mim e disse: eu senti! Eu senti o Miguel, ele tá baixando! E sorriu, e fechou os olhos novamente.

Dra Carla chegou, com o semblante preocupado, e disse que não tinha conseguido localizar o médico. Contei que os puxos tinham começado... ela suspirou. Aguardou um pouco, depois foi lá e pediu autorização para avaliar. Abriu um grande sorriso e disse: vai nascer!

Família reunida!



Miguel nasceu mais ou menos às 8h10 da noite. Lindo, cheio de vida, direto para os braços de sua mãe e sob os cuidados de seu pai. Linda cena, linda família!



Augusto cortando o cordão umbilical
Primeira roupinha - no berço aquecido montado dentro do quarto.


Agradeço sempre a oportunidade de presenciar cenas de famílias se reunindo! Adoro!

Ariane, Augusto e Miguel, obrigada!



Beijos a vocês, e que esta vida seja sempre com muita saúde!

Este é o link para o relato da Dra Carla:

terça-feira, 12 de junho de 2012

Sobre a ameaça de processo a quem defende o direito ao parto domiciliar


__________________________________________________________________________________
CARTA ABERTA À SOCIEDADE

Nós, médicos humanistas, enfermeiras-obstetras e obstetrizes, todos os profissionais, entidades civis, movimentos sociais e usuárias envolvidos com a Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento no Brasil, vimos através desta presen te Carta manifestar o nosso repúdio à arbitrária decisão do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ) de encaminhar denúncia contra o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Jorge Kuhn, por ter se pronunciado favoravelmente em relação ao parto domiciliar em recente reportagem divulgada pelo Programa Fantástico, da TV Globo.

Acreditamos estar vivenciando um momento em que nós todos, que atendemos partos dentro de um paradigma centrado na pessoa e com embasamento científico, estamos provocando a reação violenta dos setores mais conservadores da Medicina. Pior: uma parcela da corporação médica está mostrando sua face mais autoritária e violenta, ao atacar um dos direitos mais fundamentais do cidadão: o direito de livre expressão. Nem nos momentos mais sombrios da ditadura militar tivemos exemplos tão claros do cerceamento à liberdade como nesse episódio. Médicos (como no recente caso no Espírito Sant o) podem ir aos jornais bradar abertamente sua escolha pela cesariana, cirurgia da qual nos envergonhamos de ser os campeões mundiais e que comprovadamente produz malefícios para o bin�?mio mãebebê em curto, médio e longo prazo. No entanto, não há nenhuma palavra de censura contra médicos que ESCOLHEM colocar suas pacientes em risco deliberado através de uma grande cirurgia desprovida de justificativas clínicas. Bastou, porém, que um médico de reconhecida qualidade profissional se manifestasse sobre um procedimento que a Medicina Baseada em Evidências COMPROVA ser seguro para que o lado mais sombrio da corporação médica se evidenciasse.

Não é possível admitir o arbítrio e calar-se diante de tamanha ofensa ao direito individual. Não é admissível que uma corporação persiga profissionais por se manifestarem abertamente sobre um procedimento que é realizado no mundo inteiro e com resultados excelentes. A sociedade civil precisa reagir contra os interesses obscuros que motivam tais iniciativas. Calar a boca das mulheres, impedindo que elas escolham o lugar onde terão seus filhos é uma atitude inaceitável e fere os princípios básicos de autonomia.

Neste momento em que o Brasil ultrapassa inaceitáveis 50% de cesarianas, sendo mais de 80% no setor privado, em que a violência institucional leva à agressão de mais de 25% das mulheres durante o parto, em vez de se posicionar veementemente contrários a essas taxas absurdas, conselhos e sociedades continuam fingindo que as ignoram, ou pior, as acobertam e defendem esse modelo violento e autoritário que resulta no chamado "Paradoxo Perinatal Brasileiro". O uso abusivo da tecnologia contrasta com taxas gritantemente elevadas de mortalidade materna e perinatal, isso em um País onde 98% dos partos são hospitalares!

Escolher o local de parto é um DIREITO humano reprodutivo e sexual, defendido pelas grandes democracias do planeta. Agredir os médicos que se posicionam a favor da liberdade de escolha é violar os mais sagrados preceitos do estado de direito e da democracia. Ao invés de atacar e agredir, os conselhos de medicina deveriam estar ao lado dos profissionais que defendem essa liberdade, vez que é função da boa Medicina o estímulo a uma "saúde social", onde a democracia e a liberdade sejam os únicos padrões aceitáveis de bem estar.

Não podemos nos omitir e nos tornar cúmplices dessa situação. É hora de rever conceitos, de reagir contra o cerceamento e a perseguição que vêm sofrendo os profissionais humanistas. Se o CREMERJ insiste em manter essa postura autoritária e persecutória, esperamos que pelo menos o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP) possa responder com dignidade, resgatando sua função maior, que é o compromisso com a saúde da população.

Não admitimos, não permitiremos que o nosso colega Jorge Kuhn seja constrangido, ameaçado o u punido. Ao mesmo tempo em que redigimos esta Carta aberta, aproveitamos para encaminhar ao CREMERJ, ao CREMESP e ao Conselho Federal de Medicina (CFM) nossa Petição Pública em prol de um debate cientificamente fundamentado sobre o local do parto. Esse manifesto, assinado por milhares de pessoas, dentre os quais médicos e professores de renome nacional e internacional, deve ser levado ao conhecimento dos senhores Conselheiros e da sociedade. Todos têm o direito de conhecer quais evidências apoiariam as escolhas do parto domiciliar ou as afirmações de que esse é arriscado – se é que as há.

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=petparto

______________________________________________________________

Taxas de partos x cirurgias cesarianas na cidade de São Paulo: horríveis!





Relato do meu parto

Como não cheguei a entrar em TP naturalmente vou começar contando de onde considero que tenha sido o começo da “novela”.

Eu já estava com 3cm de dilatação, colo do útero “molinho” e a barriga já havia baixado 2cm. Achei que ele nasceria no fim de semana do dia 09 (09/11/2003). Aí na sexta à tarde (dia 08), deu uma chuva de granizo em Guaxupé com pedras pouco menores que bolas de ping-pong. Minha casa ficou alagada porque a calha entupiu rapidamente. Entrava água pelas lâmpadas e pelas tomadas, molhou as camas e os colchões, e até umas roupinhas do neném que eu tinha acabado de passar. Ficou tudo uma sujeira, e a sensação de ninho pronto foi literalmente por água abaixo... ficamos limpando aquela bagunça, e eu ajudando como podia com aquele barrigão imenso.

Liguei pra médica pra avisar que tínhamos decidido ir pra Ribeirão Preto, (agora pela negativa que recebemos ao nosso pedido de autorização para a presença do pai na sala de parto da Maternidade de Guaxupé). Ela estava passando o fim de semana em São Paulo. Liguei à noite, no celular, e ela disse que se eu entrasse mesmo em TP, enquanto eu estivesse na estrada ela estaria também, e que chegaríamos praticamente juntas. Fiquei tranqüila.

No sábado continuamos arrumando a casa, e eu tendo contrações indolores cada vez mais freqüentes e ritmadas. A médica de Guaxupé havia me orientado que se essas contrações ficassem muito ritmadas e cada vez mais próximas eu deveria procurá-la, mesmo sem dor. Eu cheguei a fazer isso porque ficaram de 10 em 10 minutos e depois de 5 em 5 durante mais de 4 horas. Ela me examinou e disse que a dilatação continuava a mesma, só que o colo do útero já estava afinando.

No domingo à noite a médica de Ribeirão me ligou dizendo que já estava em casa e querendo saber como eu estava. Tudo bem... as mesmas contrações indolores já nem tão freqüentes assim. Então ela disse que temia um pouco pela viagem, que gostaria que eu fosse pra algum lugar mais perto, pois havia o risco da bolsa romper. Falou como se temesse que eu ficasse muito nervosa se isso acontecesse. Pedi um tempo pra pensar. Liguei de volta na segunda à noite, falei que eu não tinha medo e que preferia ficar em casa. Aí o argumento mudou: ela disse que o neném estava ficando muito grande, a ultra de 38 semanas estimava o peso em 3,6 Kg, que agora já deveria estar em 3,8 e a cada dia que passava minha chance de um parto normal diminuía. Seria melhor induzirmos o parto o mais rápido possível. Fiquei muda de espanto! Ela ainda disse que eu estava com medo da ocitocina, que não precisava ter medo não... Pedi de novo um tempo pra pensar, desliguei o telefone e chorei até ficar com o rosto inchado e o nariz parecendo um tomate. Mandei uns e-mails, rezei, acendi umas velas... pesei tudo que havia acontecido comigo até ali. Não conseguia acreditar que tinham colocado defeito no Batatinha de novo!

Senti-me completamente impotente.Minha única escolha agora seria ir pra SP, pra casa de algum amigo ou parente, ficar lá esperando o TP começar pra valer, e ir pra uma Casa de Parto. Mas eu não estava nem um pouco a fim de sair da minha casa. Por mais amiga ou conhecida que uma pessoa possa ser eu não ficaria completamente à vontade, e ainda mais com aquele barrigão. Já era difícil dormir em casa, na minha cama, com os meus travesseiros, meus horários, minha televisão, etc. Achei que não funcionaria, que não valia a pena, ainda mais pq o Raul não poderia ir ficar junto comigo. Resolvi encarar a indução como a minha melhor chance de obter algo que se aproximasse, mesmo que vagamente, de um parto humanizado. Numa política de redução de danos conclui que se escapasse da cesárea já seria uma grande coisa.

Na terça de manhã ainda chorei um pouco, mas passei o dia todo arrumando as coisas, tomando chá de canela e pensando na conversa que teria com a médica antes de aceitar a indução. Liguei pra ela e avisei que iria no dia seguinte. Combinamos nos ver no consultório ao meio dia. Ainda tive tempo de correr até o acupunturista (Marcos), que deu um jeito de me atender, trocou minhas agulhas e colocou uma relaxante muscular e uma pré-anestésica.

Na quarta-feira, dia 12, lá fomos nós. Chegando ao consultório ela me examinou, disse que continuava tudo na mesma, exceto por eu ter perdido um pouco de peso e a barriga ter baixado mais 3 cm. A conversa que tive com ela foi a seguinte: “não tenho medo da indução, mas tenho muito medo que isso seja só a primeira de uma sucessão de intervenções: ocitocina, rompe bolsa, dá anestesia e aí fala que fez o possível mas vai ter que ser cesárea.” Ela sorriu... e me respondeu que não poderia me garantir que não acabaria em cesárea porque isso só se vê na hora, mas que bolsa ela não rompe a não ser já com a dilatação completa e SE achar necessário, e anestesista ela não chama mesmo porque a mulher perde a força na hora de empurrar. Completou dizendo que já tinha desmarcado todas as consultas até o final do dia, e que caso eu aceitasse a proposta dela ela estaria comigo o tempo todo no hospital, que me levaria pro chuveiro, que andaria comigo... a opção de ir pra SP ainda martelava na minha cabeça, mas então o pensamento que me veio foi: “eu vou aceitar, e EU vou fazer esta M*... funcionar a qualquer custo”. Aceitei.

Ela fez o papel da internação, ligou pra maternidade, falou que estava enviando uma paciente em TP, com 3 cm de dilatação, e que era pra me por o sorinho com 8 gotas por minuto que ela chegaria em seguida. Como eu não havia almoçado ela disse que se eu quisesse poderia tomar um suco ou uma vitamina antes de ir pra maternidade.

Então saímos em busca de uma lanchonete. Detalhe muito importante: eu não discuti plano de parto com ela, pois tinha resolvido ficar em Guaxupé, então só fiz isso com a médica de lá. Foi quando soubemos que o pai não poderia entrar e decidimos ir pra Ribeirão. Para a médica de Ribeirão pedi apenas que ela tentasse com o pediatra a autorização pro alojamento conjunto que na maternidade em questão ainda não tinha.

RELATO DE PARTO DO BATATINHA – segunda parte

À partir do momento em que saímos do consultório parecia realmente que eu estava em TP. Eu numa serenidade espantosa, e o Raul se confessando ansioso, começou a tagarelar e errava as entradas, dava voltas inúteis no quarteirão.






Depois que eu tomei a vitamina e ele um lanchinho fomos pra maternidade.


Chegando lá, papéis, demora, demora, a atendente me perguntou duas vezes se estava tudo bem, demora, demora, tem que subir de cadeira de rodas, chega, o quarto não está pronto, demora, e finalmente sou levada para o pré parto.


Tira a roupa, fica de avental e touquinha, vem um enfermeira que faz um monte de perguntas, entre as quais se a Ana me disse algo sobre a depilação, se devia ser parcial ou total. E eu: “não é pra depilar nada!”. Aí ela disse que ia preparar o soro e ligar pra Ana pra perguntar. Antes que tivesse
ligado a Ana chegou e falou que já que o soro não tinha sido ainda colocado ela ia fazer uma tococardio antes. Veio o aparelho, ela começou o exame e logo colocaram o soro (15h00). Ela continuou acompanhando e aí disse: “Esse exame é importante também prá descartar circular de cordão.” Pensei: agora me danei de verdade... se ela mandar essa de circular de cordão a essa altura do campeonato eu vou entrar na faca tão rápido que já era... As contrações começaram a doer um pouquinho, ela mexeu um pouco na barriga (não tocou a sireninha), o exame continuou normal, ela disse estar tudo bem e tirou o aparelho. UFA! Saiu pra atender o celular, depois o Raul saiu pra trocar o carro de estacionamento, as contrações começaram a ficar bem fortes. Me ofereceram leite achocolatado, mas eu não quis pq estava sentindo náuseas durante as contrações.

Ela fez o primeiro toque – 6 prá 7 cm – perguntou se queria ir pro chuveiro - eu quis – inclusive porque tinha passado protetor solar antes de viajar e a essa altura já tinha suado bastante, me sentia suja. Foi uma delícia! O Raul ficou comigo, segurava o chuveirinho quando vinham as ondas e eu me acocorava – era ótimo, a dor ficava mais fácil de suportar. Não sei quanto tempo fiquei lá – acho que tive umas cinco ou seis ondas de dilatação - e só aceitei sair porque tinha outra moça na fila, que a minha médica estava acompanhando enquanto o médico dela foi auxiliar uma cesárea em outro hospital. Infelizmente ele chegou antes que eu tivesse liberado o banheiro e não deixou que a moça fosse também.

Quando sai do chuveiro tentei ficar de pé pra ajudar na evolução da dilatação, mas não consegui. Na primeira onda que veio senti tontura e me deitei bem rapidinho.Ondas mais fortes, espaço diminuindo – o Raul marcou – duravam 45 segundos e o intervalo durava 2 minutos. Eu suava... a médica ficava mexendo na minha barriga, aquilo me incomodava e eu não consigo entender porque raios eu não pedi pra parar. Pedi uma toalha pra enxugar o suor – desde o começo o Raul pegava toalhas de papel e me enxugava - mas eu achei que uma toalha seria melhor. Foi ótimo porque quando vinham as ondas eu enfiava o rosto na toalha e respirava fundo, ou tentava (na maioria das vezes sem conseguir), mas a toalha me ajudou muito.

A médica saiu um pouco e veio um cara, a enfermeira falou quem eu era, ele começou a fazer perguntas , eu respondi algumas, aí parei e perguntei: você é ...? “O anestesista.” - Ah... Ele falou que estaria à disposição pra quando fosse preciso. Aquilo foi uma porcaria porque a essa altura doía muito, e eu pensava: “não vou agüentar, não vou agüentar, quando passar eu vou pedir anestesia...” Aí passava e eu resolvia agüentar mais uma.



A médica voltou, falou que tinha conseguido reduzir o período obrigatório de observação do neném no berçário pra 3 horas (eram 6).Teve uma onda que doeu mais, eu tirei a mão dela da minha barriga e procurei a mão do Raul. Comecei a gemer. Ela pediu que eu avisasse quando sentisse pressão no intestino, “como se fosse vontade de ir ao banheiro”. Mais umas quatro ondas e eu senti a pressão. Ela fez o toque – 9 prá 10 cm – mandou preparar a sala. Saiu, voltou em seguida, falou que o pediatra que tínhamos combinado chamar estava em uma reunião, mas que a pediatra de plantão também era muito boa, que já tinha conversado com ela sobre o alojamento conjunto, etc. Tudo bem. Levantei e fui andando pro Centro Obstétrico.

Mal tinha saído do pré parto veio uma onda e eu fui me abaixando. A enfermeira: “não, não, não! Fecha a perna, fecha a perna!” e eu comecei a rir! Será que ela pensou que o neném ia cair?! Fiquei só meio abaixada, com os joelhos meio dobrados e rindo!

Passou, andei até lá, subi na mesa, ela colocou uma tabuinha almofadada debaixo do braço esquerdo (que tinha o soro), e me amarrou. Eu pedi: “não me amarra nãaaaao...”, e ela soltou. Continuou me posicionando, a médica chegou, falou que eu fizesse força durante as contrações, e pediu que inclinassem a mesa.

O Raul entrou, a roupa dele era azul, ela brincou que ele tinha ganhado uma roupa mais bonita que a dela. (17h30). Ela ainda olhou as perneiras, arrumou as almofadas, reclamou que não estava bom, mexeu de novo, até que ficou satisfeita, então me amarraram as pernas e puseram os campos. Acenderam o foco, ela falou que não queria, apagaram, e ela pediu que ligassem a música (Enya, eu acho...).

À partir disso eu estive praticamente o tempo todo de olhos fechados, e toda a memória que eu tenho do parto é auditiva. Pedi que ela esperasse o cordão parar de pulsar pra cortar, ela fez que sim, e quando a pediatra chegou transmitiu meu pedido. Todo mundo que entrou na sala falou comigo, me chamou pelo nome e se apresentou.

A médica pediu que preparassem a anestesia local – olhei pra ela e falei: “não corta muito não tá?” Ela disse que só cortaria se fosse preciso. Uma picadinha... O médico auxiliar chegou, eu já conhecia, era o mesmo que fazia as minhas ultras. Tentou escutar o coração do neném, reclamou que o aparelho parecia um rádio velho, foi buscar outro. Aí ele apertava aquilo na minha barriga, eu reclamei duas vezes que estava doendo, ele parou.

Aí de vez em quando ela enfiava a mão, doía pra C***... se alguém tivesse me oferecido anestesia eu teria lhe beijado os pés! Teve uma hora que a médica mexeu na minha barriga, doeu e eu segurei a mão dela antes que pudesse perceber o que fazia. Ela falou na maior calma: “Vânia, tenta não por a mão pra baixo porque você contamina o campo”. Depois o Raul contou que tiveram que trocar o campo e a luva dela. Ela enfiou a mão de novo, eu gritei: “Não faz isso que dóoooooooooooooi... tira a mão daí!” Ela tirou (!!!) e disse: “ se você não quiser eu não ponho, mas o que eu estou fazendo é pra te ajudar.”

Daí a pouco ela enfiou de novo, e eu: “Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai Doutoraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa”. Todo mundo riu, alguém comentou que eu era muito boa, que se todas fossem assim... Outra respondeu que eu era ótima. Isso me animou um pouco.

A médica começou a pedir que eu fizesse “força comprida”, acho que fiz coco porque senti ela me limpando duas vezes, mas não estava nem um pouco preocupada. Fazia força até que fosse imperioso respirar. Escutei ela dizendo: “Vânia, para de gritar e faz força”. Nem tinha percebido que estava gritando! As ondas de repente começaram a ficar fracas. Ela pediu que eu continuasse fazendo força e eu falei com uma voz infantilizada: “mas a contração já passou...”

O médico auxiliar se aproximou e falou que da próxima vez ele ia empurrar a minha barriga pra me ajudar. Gritei: NÃO QUERO! – a médica: “o que vc não quer?” – EU NÃO QUERO QUE EMPURRE A MINHA BARRIGA! - e ela na maior calma: “agora não pode demorar muito Vânia” – pediu então que inclinassem mais a mesa e disse: “pode inclinar, não vai cair não” (??) – pediu também que abrissem mais o soro. Falou pro Raul segurar minha cabeça alta. Decidi que da próxima faria força até desmaiar se fosse preciso. Minha impressão foi de que cheguei bem perto disso. Veio a onda e eu fiz fooooooorçaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa... Senti um PLUFT! Abri os olhos e lá estava o Batatinha! E tudo que eu consegui pensar foi: Graças a Deus eu não desmaiei. Ele foi colocado no meu peito, todo lambrecado e com um pouco de sangue. Falei com ele, dei boas vindas, beijei várias vezes, todos na sala sorriam.



A pediatra pediu licença, perguntou se podia levar um pouquinho, eu deixei depois de beijar mais um pouco. Quando passei ele pro colo dela ele chorou e ela disse: “não chora... eu não sou a mamãe mas eu sou boazinha também!” e ele parou. Depois começou de novo, e eu fiquei escutando ele chorar e pensando: a maioria das mães gosta de ouvir o filho chorar, mas eu sei o que estão fazendo lá... que M*... Ele voltou, tinham limpado o sangue, perguntei se tinham dado injeção – sim – e quanto foi o apgar? 9 e 10 – “dez antes mesmo de ter aspiradas as vias aéreas”. Aí ele foi levado pro berçário e eu comecei a tremer violentamente.



-Terceira e última parte -

Ele nasceu às 18h25 do dia 12/11/2003, pesando 3,625Kg e medindo 49 cm. Depois que foi levado pro berçário, comecei a tremer violentamente. A médica avisou que ia tirar a placenta. – Aaaaaaaaaaaaaai – que ia ver se não tinha ficado nenhum resto lá dentro... – Aaaaaaaaaaaaai – e pediu que eu relaxasse o quadril pra ela dar os pontos da episio.

Relaxar de que jeito?! Eu parecia um liquidificador! Ela perguntou se eu queria mais anestesia, perguntei: Quantos pontos serão? – “Dez, entre internos e externos. Não rasgou nem um pouquinho além do que eu cortei” Tá... aceitei mais anestesia. Depois avisou que ia passar o antisséptico (falou o nome), disse que era o que ardia menos, mas que ia arder um pouco. Eu já estava perdendo a paciência... - Quando penso que acabou ainda tem mais!! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai. E então tinha acabado.

Ela perguntou se estava tudo bem. – “Estou sem circulação nas pernas, tá doendo”. Já estavam me soltando. Ela desceu minhas pernas e fez um pouco de massagem. Fui levada pro quarto, ainda tremia.

Pedi pro Raul ir olhar o neném. Ele voltou e disse que ele estava na isolete, pertinho da janela do berçário, “de bundão pra cima e olhando tudo.” Logo veio uma canjinha pra mim, começamos a ligar pra família, liguei também pra Eleonora (amiga do meu parto) mas ela não estava em casa.Eu continuava com o soro, sei lá com que remédio, não lembro mais, e de olho no relógio. Liguei de novo pra Eleonora, o marido dela atendeu (Wlad – eu nunca tinha falado com ele): “Oi Vânia! E aí foi tudo bem? Parto natural?” Foi! Fiquei escutando ele comemorar aos gritos... “Pan, é a Vânia, foi parto natural!!” Ela veio.

Expliquei que não foi tão natural, que teve a indução, a episio... mas eu estava muuuuuito feliz e me sentindo muuuuito bem. Ela perguntou alguns detalhes, nos parabenizou, eu pedi pra ela mandar notícias pra Adriana e pra lista (Parto Nosso - derivada da Amigas do Parto).Aí já estava na hora de ver o Batatinha. Chamei a enfermeira. Ela disse que o período de observação seria de 6 horas. – MAS no meu caso esse período foi reduzido pra 3. Então o trouxeram. Lindo, cabeludo, bochechudo, pegou o peito super bem, de primeira, e me olhava com aqueles olhos azuis de recém nascido. Fiquei deliciada!

AMOR! amor, amor, amor, amor...


Depois de parar de mamar ficou no meu colo. O cansaço chegou, o Raul também muito cansado. Dei o braço a torcer. Eu tinha autorização pra alojamento conjunto, mas quando a enfermeira veio buscar eu deixei levar. Aí veio uma enfermeira e tirou o soro, depois me ajudou a tomar banho. Já era mais de meia noite.Dormi super pouco, mas super bem. Sentindo-me totalmente desperta pensei em mandar trazê-lo de volta, mas eram só 3h da manhã! Parecia que eu tinha dormido 3 dias. O parto começou a passar na minha cabeça como um filme, eu lembrava das minhas reclamações e dos gritos e ria baixinho. Às cinco da manhã ele veio, mamou de novo e ai ficou comigo. Teve “aulinha” de banho e de cura de umbigo no berçário. Lotado! Disseram que tinha mulher espalhada por outros setores do hospital pq os quartos da maternidade acabaram. Surpresa deliciosa: no meio da manhã e no meio da tarde passou um cara tocando violino – tocou aquela música do Titãs: o acaso vai me proteger... (não sei o nome), Eu sei que vou te amar e A noite do meu bem. AMO esta música. Derramei umas lagriminhas... Agora pelo resto da minha vida, cada vez que escutar uma destas 3 músicas maravilhosas vou lembrar daquele momento mágico onde “dei à luz” um menininho saudável, perfeito e gordinho.

Às 4 da tarde a médica veio e me deu alta. Eu já estava andando pelo corredor pra estimular o intestino a funcionar. Tinham me dado “um laxantezinho”, e em todas as refeições veio mamão. Comecei a achar que minha alta dependeria disso – pura viagem. Conversei com ela ainda no corredor, fiz umas perguntas. Falei que senti as contrações – óbvio – mas não senti nenhuma dor da saída dele – só das mãos dela, aquilo doía demais! Ela disse que tinha ficado preocupada com o tamanho dele, e que punha as mãos pra se certificar que ia passar. Fez um gesto com as duas mãos segurando uma bola e rodando, e completou dizendo que se as mãos dela tinham espaço pra rodar em volta da cabecinha, então ele ia passar. Putz... Percebi que realmente ela esteve com muito medo. E quanto a não perceber a saída dele, ela disse: “eu sei... quando você falou que a contração tinha passado, era porque ele já estava metade pra fora”.

Já estava com tudo arrumado pra ir embora quando a Eleonora chegou. A única visita que recebi e amei conhecê-la pessoalmente, depois de tantos e-mails e telefonemas em busca de um parto mais digno.

Menos de 24 horas após o parto estávamos na estrada a caminho de casa.

Capacidade de adaptação às limitações impostas pelo meio
Considerações posteriores: apesar de ter sido muita sofrida, na época, a decisão de aceitar a indução do parto, penso que fiz a melhor escolha. Depois fiquei sabendo que as Casas de Parto exigem acompanhamento à partir da semana 37 e eu já estava entrando na 39. E nunca consegui saber se a minha gestação era considerada ainda de baixo risco, porque tinha algumas alterações nos ultra-sons que eram “indícios de possível má formação fetal”. Se eu tivesse ido para São Paulo o Raul não poderia ir comigo. Ele teria que ser chamado quando o trabalho de parto tivesse se iniciado e correria o risco de não chegar a tempo, e além disso, sair pra estrada muito ansioso definitivamente não é boa idéia. Nada disso era claro na minha cabeça na hora de decidir. Eu apenas tinha vontade de lutar um pouco mais por um parto humanizado mas, tinha a sensação de não daria certo e que a indução era minha melhor chance. Confiei nisso e funcionou. Ainda bem!

Do que me arrependo: de ter cedido na questão do alojamento conjunto, de ter deixado darem o banho, de ter deixado darem a injeção... Não tive forças prá lutar por cada detalhe e essas coisas escaparam ao meu controle. (O neném teve impetigo (infecção de pele) contraído no berçário, e com uma semana precisou tomar antibióticos.)

Conclusão: ainda precisamos lutar muito para melhorar as condições de atendimento às gestantes e parturientes no nosso país, porque por mais informada que uma mulher possa ser, na hora do parto fica praticamente impossível conquistar condutas humanizadas se elas já não forem rotineiras. Eu agora faço parte dessa luta!"

Vânia Bezerra
psicóloga com aprimoramento em psicologia hospitalar, educadora perinatal e doula

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Mariana, Rodrigo e Manuela – agosto de 2010


Conheci este casal nos encontros do Grupo de Apoio ao Parto Natural. Sempre sorridentes e participativos, absorviam as informações, cada vez mais encantados com a possibilidade de trazer a filha para o lado de cá da barriga sem ter que recorrer a técnicas invasivas.

Participaram de uma oficina de parto, e como sempre,  toquei aquela música que tem uma mudança de ritmo muito forte e depois recupera a cadência mais tranquila. É uma música de quase dez minutos.


Mariana não aguentou e perguntou:
- “Mas essa música tem fim?!”
Respondi:
- Não parece mesmo que nunca mais vai acabar?! Mas acaba... uma hora ela acaba. Igualzinho a gestação que às vezes temos a impressão que nunca mais vai acabar... e igualzinho o TP... mas uma hora nasce. É preciso ter paciência e confiança infinitas. Um dia você entra mesmo em TP, e chega a hora em que o bebê estará nos seus braços.

Fui à casa deles algumas vezes, nas reuniões de preparação para o parto. Eles tinham frequentado as reuniões do GAPN e não tinham muitas dúvidas. Lembro bem do Rodrigo pedindo a palavra quando foram a uma reunião do GAPN, Mariana já com mais de 40 semanas. Ele falou sobre a oficina de parto, recomendando que todos que pudessem não perdessem essa oportunidade de fazer uma revisão de todo o processo do parto porque são muitos detalhes que podem fazer uma grande diferença.

Estando com mais de 40 semanas a família da Mariana começou a ficar muito preocupada. Seu pai é médico, e mais alguns membros da família também são. Em uma tentativa de acalmar aqueles que estavam perdendo o sono de tanta preocupação, Mariana e Rodrigo aceitaram submeter-se a exames sem indicação real, o que significa dizer: está tudo bem, não temos nenhum sinal de problemas, mas vamos fazer uns exames só para comprovar que está tudo bem mesmo. Acontece que só o fato de sair de casa, entrar em uma clinica ou em um hospital, ficar esperando, escutar histórias enquanto esperam, responder perguntas inadequadas, ter a expectativa de receber o resultado... isso tudo já começa a minar a confiança de qualquer cristão! 

Exames demais para comprovar o bem estar fetal, que a rigor poderia ser observado pela motilidade fetal. (Se o bebê continua se mexendo bastante então está tudo bem). Talvez um exame para dar uma olhada na placenta e no líquido, se passar de 41 semanas, dependendo do médico... mas uma recomendação que sempre poderia ser feita é: NÃO estimar o peso do feto. Precisamos saber SÓ sobre a saúde da placenta, do líquido e do feto. Se ele está com 3 ou com 4 kilos não é uma informação importante. Bebês de 4 kilos nascem com mais facilidade quando a mãe(e o médico) não sabem... heheheh.

A mãe de Mariana chegou para aguardar o nascimento da neta. Instalou-se na casa deles. Para qualquer pessoa a chegada de uma mãe amorosa e querida é uma alegria. O casal me disse mais de uma vez que ela era muito tranquila, sua presença durante o TP não seria problema, e se chegassem ao ponto de precisar pedir licença acreditavam que ela não se ofenderia. Completavam a descrição dela com a observação de que como eu, ela também é psicóloga.
Um dia Dra Carla me ligou e perguntou se eu não estava sentindo a Mariana muito ansiosa. Talvez fosse bom conversar com o casal, ver como estavam encarando a espera além das 40 semanas. Eu sempre reluto em ligar para saber se está tudo bem. O contrato já foi feito, eu já fui à casa deles várias vezes, pedi que me ligassem sempre que sentissem necessidade, nem que fosse para tirar uma dúvida às 2 da madrugada... se começo a ligar para saber se está tudo bem quem está ansiosa sou eu! Fico me sentindo mais uma entre todas as pessoas que ligam para perguntar se esse nenê nasce ou não nasce! Mas, tendo uma indicação da médica de que havia certa tensão no ar... eu liguei. Conversamos duas vezes ao telefone, e fui até a casa deles numa passadinha bem rápida, achei que estavam tranquilos. No entanto, eles contaram que os últimos dias tinham sido mesmo muito tensos, com a família de cabelos em pé, muitos exames desnecessários, terminando com uma grande crise de choro... e depois disso parecia que os ânimos finalmente tinham se acalmado. Alguém percebeu que ao invés de ajudar estava atrapalhando. Mariana teve uma conversa com a mãe dela e esclareceu as coisas: você veio para me ajudar e não para me vigiar nem para ficar passando resultados de exames para a junta médica familiar dar o seu parecer... então, com os pingos bem colocados nos seus devidos is, Mariana relaxou, e entrou em TP na mesma noite.


Rodrigo ligou perto das 4 da manhã dizendo que ela tinha passado a madrugada com contrações e agora estavam ficando mais próximas e mais fortes. Cheguei muito rápido porque tanto eu quanto eles moramos perto de uma avenida marginal. O casal estava na suíte, a mãe dela dormindo em outro quarto, fizemos o possível para não acordá-la. Mariana estava bem ajeitada, de joelhos e debruçada sobre a bola suíça, descansando e movendo os quadris para relaxar. Pelo quarto eu vi caixinhas de suco e potinhos com castanhas, xícaras de chá... a madrugada tinha sido agitada. 

Providenciei a bolsa de água de quente e enquanto estava na cozinha a mãe dela apareceu. Fiz o possível para estabelecer um clima de festa! (Hoje é dia de bebezinho novo na família, que dia feliz!). Mas minhas tentativas não foram correspondidas e logo a conversa girava em torno dos exames serem necessários, confiáveis, etc... Uma mesa de café da manhã foi colocada, fomos chamados para o desjejum. Mariana disse que não estava com fome e queria tomar um banho. As contrações ainda não estavam muito próximas, o nascimento não era eminente, não vi problemas em deixá-la banhar-se sem platéia. Errei feio. 

Enquanto estávamos à mesa, ela no banho, eu a vi abrindo a janela do banheiro... mas estava envolvida em uma conversa sobre a falta de confiança que os médicos em geral sentem na capacidade da mulher em parir... Rodrigo levantou-se da mesa e foi dar uma olhada na Mariana. Ela estava quase desmaiando. Dia quente, chuveiro quente, contração forte, medo... a pressão caiu. Daí pra frente não arredei o pé de perto dela.

Logo ela começou a sentir o cansaço da noite mal dormida, falava da tensão dos últimos dias, e o casal falou também da tensão que sentiram na equipe: eu e Dra Carla. Era como se estivessem em um beco sem saída, pois se aceitassem a pressão da família e pedissem a cesárea, sentiam que a solicitação não seria bem recebida por nós duas, no que estavam cobertos de razão. Nós sempre vamos conversar e tentar ajudar a superar a tensão da reta final. Não me imagino nem em um milhão de anos aceitando um pedido de cesárea assim, simplesmente, e de consciência tranquila. O casal cogitou ligar direto para outro médico e solicitar a cesárea, mas também sabiam que não seria tranquilo. Nesse meio tempo Mariana teve aquela crise de choro, a família recuou um pouco, alguém ligou e disse que a rigor não havia problema em esperar mais um pouco já que os exames estavam todos com resultados normais...

Aí as contrações começaram, eles tiveram fé de que nasceria logo. 

Mas o dia estava amanhecendo, Mariana quase desmaiou no chuveiro e daí pra frente ela mal conseguiu recuperar a calma. As lágrimas começaram a escorrer e a frase veio:
- “Eu não aguento mais”.

Após conversar um pouco e me certificar de que ela tinha atingido uma situação limite, liguei para a Dra Carla e disse que Mariana havia passado a noite com contrações, que estavam agora com intervalo de 3 a 4 minutos, mas ela agora estava solicitando a cesárea. Realizar a cirurgia em uma mulher que está em TP é bem diferente de tirar um bebê que não sentiu nenhuma contração sobre seu corpinho: o risco de prematuridade iatrogênica (provocada pelo médico) diminui drasticamente. Diante disto e também do histórico de ansiedade na última semana a solicitação do casal foi aceita e então fomos para a maternidade.

Chegando lá, eu e Mariana entramos e ficamos aguardando a enfermeira, o Rodrigo ficou fazendo a internação. O movimento no corredor estava bem baixo, ficamos quase sozinhas. As lágrimas começaram  novamente a correr, Mariana me abraçou e disse:
- “Vânia, da próxima vez eu vou fazer tudo diferente, mas agora eu não aguento mais, você não faz idéia do inferno que foram os últimos dias...”.

Quase chorei junto. Eu sabia o quanto ela havia se preparado e o nível de pressão que sofreram para ela chegar a este ponto de exaustão. E o pensamento inevitável que começa a rondar os casais que sofrem esse tipo de estresse: “e se acontecer alguma coisa e nós tivermos que escutar o resto da vida que nós fomos avisados”?

Tenho um livro maravilhoso que me foi dado de presente pela Dra Carla: Birthing from within. Há um capítulo que fala sobre o medo, e a autora diz que até um quadro com a figura de um tigre em posição de ataque é capaz de provocar uma certa descarga de adrenalina. E esse assunto sempre volta à pauta das reuniões do grupo de apoio ao parto: o medo contamina com muito mais facilidade do que a coragem. É essencial que as pessoas presentes no parto sejam confiantes. Se tiver uma com medo ela pode contaminar o grupo todo. E a confiança que Mariana e Rodrigo sentiam finalmente tinha sido vencida.



Enquanto ficamos no quarto aguardando que viessem prepará-la para a cesárea ela começou a sentir muito calor, e a pressão foi até aferida algumas vezes seguidas porque de repente ela ficava até vermelha e pedia socorro com o olhar. Eu pegava o que estivesse por perto para abaná-la e teve uma hora que pedi até a prancheta da enfermeira!  Com as contrações um pouco mais próximas, Mariana aceitou ir caminhando ao lado da maca até o centro cirúrgico porque deitada a sensação dolorosa seria maior. Quando saímos do quarto ela teve uma contração muito forte bem na frente de uma pequena plateia que aguardava o inicio do atendimento do ambulatório de alto risco. Enquanto eu fazia massagem nela observava as expressões de espanto... a dor do parto quase sempre é vista como se fosse um grande sofrimento e totalmente desnecessário. Fiquei pensando que um grande cartaz com a lista de todos os riscos de fazer uma cesárea fora de trabalho de parto deveria ser afixada nos corredores das maternidades e dos ambulatórios de pré-natal nos postos de saúde. Que tal avisar que não há um exame capaz de detectar maturidade neuronal e que fazer uma cesárea só porque um exame disse que os pulmões já estão maduros aumenta a probabilidade de ter um filho com problemas para mamar, e com hiperatividade e déficit de atenção? Não seria bom que as futuras mamães soubessem disso?

Ainda acompanhei o Rodrigo até o balcão da maternidade para pegar a ficha de autorização para acompanhar a cesárea. Fiquei na maternidade até que ela viesse para o quarto e tendo me certificado que estava tudo dentro do esperado fui embora de consciência tranquila. O casal sentiu-se bem atendido afinal. 

Voltando: a próxima lembrança vívida que tenho é da Mariana voltando ao GAPN, meses depois, com sua pequena Manuela nos braços, e começou seu depoimento dizendo algo assim:

- “Eu sou professora e sempre incentivo meus alunos a terem uma visão crítica sobre os assuntos desenvolvidos... hoje eu vim contar o que eu aprendi durante a minha gestação e parto que virou cesárea. Espero que a minha experiência possa servir de exemplo para que vocês tenham a chance de repensar estratégias antes que seja tarde... eu nunca quis cesárea...”.


__________________________________

Oi Vânia,
Que bom que está gostando da nova vida. Ficamos felizes por você. 
Por aqui está tudo bem, a Manuela é uma graça ! Eu e o Rodrigo estamos encantados e muito felizes. Ela está andando por tudo, não para um minuto. 
Fique à vontade para publicar o relato. Só peço a gentileza de não publicar foto.

um grande abraço
Mariana
01/11/2011

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Karen e Jr – nascimento da Sofia - 03/08/2010

Karen conheceu meu trabalho no grupo de apoio ao parto natural, que começou a frequentar logo no início da gestação. 

Quando me contratou deixou claro que tinha mais dúvidas em relação aos cuidados com o recém-nascido, então conversamos bastante sobre isso, mas como sempre, assistimos aos vídeos sobre parto e ela sempre esteve muito tranquila em relação a isso. Sendo veterinária e acupunturista, ela tinha uma visão do parto já bastante esclarecida. Quem tem confiança na mãe natureza geralmente tem confiança na própria natureza também.

Preocupava-me o número reduzido de vezes que eu via o Jr participando dos encontros do GAPN e dos nossos encontros na cada deles, mas ele a acompanhou na oficina de parto e também tivemos o cuidado de marcar a confecção do plano de parto para o período da noite, e assim, quando ela completou 38 semanas eu já estava confiante na participação ativa dele.

Karen entrou em TP quando estava com 40 semanas e 6 dias. Ela me ligou às 14h30, eu estava prontinha para sair de casa, então só precisei desmarcar o compromisso e pegar a mochila de doulagem. Cheguei à casa dela em quinze minutos. Ela mesma abriu a porta, me recebeu muito tranquila, sorridente. Logo dispensou a empregada, e ficamos sózinhas. Subimos para o quarto e quando vinham as contrações ela se apoiava na parede e balançava os quadris. Daí a pouco eu já providenciei a bolsa de água quente.

O Jr estava trabalhando e pediu que eu confirmasse que era mesmo trabalho de parto antes dele vir. Em meia hora, mais ou menos, eu já liguei pra ele e pedi que viesse para casa, pois as contrações já estavam ficando bem próximas e os pais também precisam de tempo para adaptarem-se à frequência das contrações. Sempre penso que um erro enorme que algumas maternidades cometem é que depois de manterem os pais afastados durante o TP os deixam entrar quando a criança está quase nascendo. Aí eles chegam quando a mulher já está fazendo força, contrações longas... para quem nunca viu pode ser um quadro assustador e é daí que alguns pais acabam desmaiando na sala de parto. É necessário que os pais que querem estar presentes o façam desde o início do TP.

Rapidamente ele chegou em casa, e passou a participar, amparando-a durante as contrações, fazendo massagem, ficando junto quando ela entrou no chuveiro. Karen vomitou várias vezes, e a preocupação de que ela começasse a sentir-se fraca começou a me rondar. É difícil ficar insistindo que elas comam alguma coisa quando começam a ficar muito nauseadas. No entanto, a Karen não teve essa dificuldade. Ela continuou tomando água aos goles, comeu alguns pedaços de banana, tomou um suquinho.
Às quinze e trinta a bolsa rompeu e ela me chamou para ver o líquido. Estava verde, mas achei que estava bem diluído e não me preocupei. Deixei passar algumas contrações antes de ligar para a Dra Carla contando o que estava acontecendo. Ainda ficamos em casa por mais uma hora. Só quando as contrações firmaram de dois em dois minutos é que fomos para a maternidade. Marquei 16h22 16h25 16h27 16h29 16h31 16h33 Aí começamos a colocar as malas no carro e fomos com bastante calma para a maternidade. 

A dilatação ainda não estaria muito avançada, mas com a presença do mecônio a Dra. Carla queria que os batimentos cardíacos da bebê começassem a ser monitorados com maior frequência, e assim foi feito.

Na internação não foi feito o exame de toque. A presença do mecônio o torna mais desaconselhável ainda. 

Fomos instalados no quarto maior, com o maior banheiro, que fica no meio do corredor. Logo inflei a banheira e a coloquei para encher. Às 17h50 foi feito o primeiro toque, que constatou 9 cm de dilatação. Em seguida ela entrou na banheira e ficou lá durante um bom tempo. Eu coloquei um pedaço de mangueira grossa drenando a água da banheira para o ralo, e o chuveiro ficou aberto, de modo que a água era renovada o tempo todo. Mesmo assim pudemos observar que a água ficava cada vez mais verde.

Karen não se abalou, estava na partolândia, muito tranquila, e mantínhamos a confiança de que tudo se encaminharia bem. Os batimentos cardíacos da bebê não tiveram qualquer alteração importante, mantendo-se sempre dentro do esperado. A dilatação se completou e continuamos esperando.

Três horas depois mais um exame de toque, no qual a médica chegou a pensar que a bebê tinha virado e estava sentada. Já havia essa suspeita porque a ausculta era feita acima do umbigo. (Uma das formas de sabermos que o bebê está descendo no canal de parto: se de tempos em tempos o coração está mais baixo, isso só pode significar que o bebê está mais baixo. Bem no finalzinho do expulsivo o coração do bebê está na altura da linha dos pelos pubianos, o que indica que a cabecinha logo vai começar a aparecer lá embaixo). 

Então... se o coração da Sofia estava acima do umbigo da Karen, ou estava muito alta ou tinha se virado e agora estava sentada. E foi exatamente isso que pareceu quando ao tentar tocar a cabecinha da bebê, Dra. Carla encontrou uma estrutura macia. Mas ao continuar tocando para se certificar, Dra Carla percebeu que não, a bebê estava mesmo era muito alta e a estrutura macia era a bossa que estava se formando. Então fizeram um acordo de esperar mais um pouco, e quando a Karen sentisse que havia algo diferente ou quando não aguentasse mais, fariam outro toque e tomariam uma decisão.








Era 21h15. Saí um pouquinho e fui quase correndo até a padaria comer alguma coisa e tomar um suco. Tudo que eles não precisavam era de uma doula desmaiando de fome... o casal estava tão sintonizado e unido que mal perceberam a minha falta. Cheguei de volta e encontrei o Jr apoiando a cabeça da Karen na beirada da banheira, exatamente como estavam quando eu sai. E ainda demorou um pouco até ela chamar a Dra Carla. O resultado do toque continuou igual, e decidiram-se pela cesárea. 

Quando estavam reunindo a equipe, Dra Carla ligou pessoalmente para o anestesista de plantão e explicou que era um trabalho de parto natural que não tinha evoluído, mais de 3 horas de dilatação completa... de repente ela parou de falar, olhou em volta com cara de espanto e disse:

- “Ele desligou na minha cara! E agora?”

E a enfermeira respondeu:

- “Então ele vem. Quando não vem ele logo deixa bem claro, falando um monte de palavrões e completando com um “se vira!”.

Com isso o clima deu uma desanuviada pois quase todo mundo começou a rir... mas me diz se não era uma situação para chorar?

O Jr não quis entrar para acompanhar a cirurgia e entrei devidamente acompanhada da máquina fotográfica para registrar os primeiros momentos da Sofia neste nosso lindo mundo. Mas como já tinha visto o nível de profissionalismo do anestesista, nem cogitei a hipótese de ficar ao lado dela. Uma das berçaristas me avisou: “se ele ver você aí, vai te colocar pra fora aos berros”.

Logo a Sofia estava do lado de cá da barriga, e fui acompanhar o primeiro atendimento da pediatra. Fiquei o tempo todo me escondendo do anestesista, passando abaixada diante da janelinha das portas, e consegui tirar várias fotos. E estava ao lado da bebê segurando a mãozinha dela quando ele passou no corredor, já de saída, e eu quase me joguei no chão! 

Tragicômico! Pensar que a lei do acompanhante já tinha mais de 5 anos!

Depois dele sair eu fui ficar com a Karen. Assim que cheguei e dei um beijo nela, ela disse:

- “Jamais passou pela minha cabeça que eu precisaria de uma cirurgia... o anestesista foi tão grosso! Eles não conseguem esperar a contração passar para fazer os procedimentos! A enfermagem também, nossa... a sondagem doeu muito”!


Fiquei ali com ela, consolando, conversando...

A essa altura eu já tinha ligado para o Jr e avisado que tinha nascido, estava tudo bem, tinha dado tudo certo (do ponto de vista físico), etc... lidar com a dor emocional da cirurgia e do atendimento frio dentro do centro obstétrico é outra coisa... Quando Karen foi levada para o quarto o Jr já tinha ido correndo até em casa, tomado um banho, comido alguma coisa... de modo que estava pronto para passar a noite com elas.

Cheguei em casa perto da meia noite. A tranquilidade de que tudo que podia ser feito foi feito dá lugar a um sono tranquilo. Mas com certeza seria mais tranquilo se ela tivesse sido bem tratada dentro do centro cirúrgico.

Quando fui visitá-la ela estava bem, andando já sem muita dor no corte, e a amamentação estava tranquila. 

Estavam naquela fase de achar que a bebê nunca mais vai parar de mamar, porque como os recém-nascidos se cansam logo e o leite materno tem a absorção muito rápida, a impressão que a gente tem é que acabaram e mamar e já querem de novo. Já que essa também é uma fase importantíssima do desenvolvimento emocional do bebê, o melhor que se faz é dar o peito toda vez que o bebê quiser. Isso, na minha opinião, é livre demanda: se a demanda é fome, sede, ou necessidade de estar junto, não importa. Se a mulher percebe claramente que o bebê está “xupeitando” então pode tentar tirar o peito mas ficar com o bebê no colo mais um pouco, sem tentar colocar no berço, carrinho ou bebê conforto imediatamente. Senão o resultado é sempre o mesmo: choro que sinaliza: “não quero ficar sozinho”.

Karen estava fazendo tudo direitinho! E como a confiança de que a cesárea foi bem indicada era certa, ficamos vendo fotos e curtindo a bebê. Linda!

Karen, parabéns pela confiança, perseverança e sabedoria. Sua tranquilidade foi fundamental para que a Sofia pudesse receber as ondas do hormônio do amor durante várias horas antes de ser nascida.
Jr, parabéns pela presença e companheirismo.
Sofia, seja sempre bem vinda! Muita saúde, sempre!
Beijos,
Vânia Doula.