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São Carlos (cidade natal), SP, Brazil
Sou Doula e Psicóloga. Atendo em consultório na Vila Prado em São Carlos SP. Formada em Psicologia pela UFU em 1996, fiz Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pela PUC/Camp em 1998, formação de Educadora Perinatal pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa em 2004, e Curso de Extensão em Preparação Psicológica e Física para a Gestação, Parto, Puerpério e Aleitamento pela UNICAMP em 2006, onde neste mesmo ano, participei da palestra "Dando à luz em liberdade - Parto e Nascimento como Evento Familiar" com a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez. O que é uma doula? Uma mulher experiente que serve (ajuda)outra mulher durante o trabalho de parto e o pós-parto. Sou doula e psicóloga. Atendendo em consultório particular na Vila Prado em São Carlos SP Contato: vaniacrbezerra@yahoo.com.br (16) 99794-3566
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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Mariana, Rodrigo e Manuela – agosto de 2010


Conheci este casal nos encontros do Grupo de Apoio ao Parto Natural. Sempre sorridentes e participativos, absorviam as informações, cada vez mais encantados com a possibilidade de trazer a filha para o lado de cá da barriga sem ter que recorrer a técnicas invasivas.

Participaram de uma oficina de parto, e como sempre,  toquei aquela música que tem uma mudança de ritmo muito forte e depois recupera a cadência mais tranquila. É uma música de quase dez minutos.


Mariana não aguentou e perguntou:
- “Mas essa música tem fim?!”
Respondi:
- Não parece mesmo que nunca mais vai acabar?! Mas acaba... uma hora ela acaba. Igualzinho a gestação que às vezes temos a impressão que nunca mais vai acabar... e igualzinho o TP... mas uma hora nasce. É preciso ter paciência e confiança infinitas. Um dia você entra mesmo em TP, e chega a hora em que o bebê estará nos seus braços.

Fui à casa deles algumas vezes, nas reuniões de preparação para o parto. Eles tinham frequentado as reuniões do GAPN e não tinham muitas dúvidas. Lembro bem do Rodrigo pedindo a palavra quando foram a uma reunião do GAPN, Mariana já com mais de 40 semanas. Ele falou sobre a oficina de parto, recomendando que todos que pudessem não perdessem essa oportunidade de fazer uma revisão de todo o processo do parto porque são muitos detalhes que podem fazer uma grande diferença.

Estando com mais de 40 semanas a família da Mariana começou a ficar muito preocupada. Seu pai é médico, e mais alguns membros da família também são. Em uma tentativa de acalmar aqueles que estavam perdendo o sono de tanta preocupação, Mariana e Rodrigo aceitaram submeter-se a exames sem indicação real, o que significa dizer: está tudo bem, não temos nenhum sinal de problemas, mas vamos fazer uns exames só para comprovar que está tudo bem mesmo. Acontece que só o fato de sair de casa, entrar em uma clinica ou em um hospital, ficar esperando, escutar histórias enquanto esperam, responder perguntas inadequadas, ter a expectativa de receber o resultado... isso tudo já começa a minar a confiança de qualquer cristão! 

Exames demais para comprovar o bem estar fetal, que a rigor poderia ser observado pela motilidade fetal. (Se o bebê continua se mexendo bastante então está tudo bem). Talvez um exame para dar uma olhada na placenta e no líquido, se passar de 41 semanas, dependendo do médico... mas uma recomendação que sempre poderia ser feita é: NÃO estimar o peso do feto. Precisamos saber SÓ sobre a saúde da placenta, do líquido e do feto. Se ele está com 3 ou com 4 kilos não é uma informação importante. Bebês de 4 kilos nascem com mais facilidade quando a mãe(e o médico) não sabem... heheheh.

A mãe de Mariana chegou para aguardar o nascimento da neta. Instalou-se na casa deles. Para qualquer pessoa a chegada de uma mãe amorosa e querida é uma alegria. O casal me disse mais de uma vez que ela era muito tranquila, sua presença durante o TP não seria problema, e se chegassem ao ponto de precisar pedir licença acreditavam que ela não se ofenderia. Completavam a descrição dela com a observação de que como eu, ela também é psicóloga.
Um dia Dra Carla me ligou e perguntou se eu não estava sentindo a Mariana muito ansiosa. Talvez fosse bom conversar com o casal, ver como estavam encarando a espera além das 40 semanas. Eu sempre reluto em ligar para saber se está tudo bem. O contrato já foi feito, eu já fui à casa deles várias vezes, pedi que me ligassem sempre que sentissem necessidade, nem que fosse para tirar uma dúvida às 2 da madrugada... se começo a ligar para saber se está tudo bem quem está ansiosa sou eu! Fico me sentindo mais uma entre todas as pessoas que ligam para perguntar se esse nenê nasce ou não nasce! Mas, tendo uma indicação da médica de que havia certa tensão no ar... eu liguei. Conversamos duas vezes ao telefone, e fui até a casa deles numa passadinha bem rápida, achei que estavam tranquilos. No entanto, eles contaram que os últimos dias tinham sido mesmo muito tensos, com a família de cabelos em pé, muitos exames desnecessários, terminando com uma grande crise de choro... e depois disso parecia que os ânimos finalmente tinham se acalmado. Alguém percebeu que ao invés de ajudar estava atrapalhando. Mariana teve uma conversa com a mãe dela e esclareceu as coisas: você veio para me ajudar e não para me vigiar nem para ficar passando resultados de exames para a junta médica familiar dar o seu parecer... então, com os pingos bem colocados nos seus devidos is, Mariana relaxou, e entrou em TP na mesma noite.


Rodrigo ligou perto das 4 da manhã dizendo que ela tinha passado a madrugada com contrações e agora estavam ficando mais próximas e mais fortes. Cheguei muito rápido porque tanto eu quanto eles moramos perto de uma avenida marginal. O casal estava na suíte, a mãe dela dormindo em outro quarto, fizemos o possível para não acordá-la. Mariana estava bem ajeitada, de joelhos e debruçada sobre a bola suíça, descansando e movendo os quadris para relaxar. Pelo quarto eu vi caixinhas de suco e potinhos com castanhas, xícaras de chá... a madrugada tinha sido agitada. 

Providenciei a bolsa de água de quente e enquanto estava na cozinha a mãe dela apareceu. Fiz o possível para estabelecer um clima de festa! (Hoje é dia de bebezinho novo na família, que dia feliz!). Mas minhas tentativas não foram correspondidas e logo a conversa girava em torno dos exames serem necessários, confiáveis, etc... Uma mesa de café da manhã foi colocada, fomos chamados para o desjejum. Mariana disse que não estava com fome e queria tomar um banho. As contrações ainda não estavam muito próximas, o nascimento não era eminente, não vi problemas em deixá-la banhar-se sem platéia. Errei feio. 

Enquanto estávamos à mesa, ela no banho, eu a vi abrindo a janela do banheiro... mas estava envolvida em uma conversa sobre a falta de confiança que os médicos em geral sentem na capacidade da mulher em parir... Rodrigo levantou-se da mesa e foi dar uma olhada na Mariana. Ela estava quase desmaiando. Dia quente, chuveiro quente, contração forte, medo... a pressão caiu. Daí pra frente não arredei o pé de perto dela.

Logo ela começou a sentir o cansaço da noite mal dormida, falava da tensão dos últimos dias, e o casal falou também da tensão que sentiram na equipe: eu e Dra Carla. Era como se estivessem em um beco sem saída, pois se aceitassem a pressão da família e pedissem a cesárea, sentiam que a solicitação não seria bem recebida por nós duas, no que estavam cobertos de razão. Nós sempre vamos conversar e tentar ajudar a superar a tensão da reta final. Não me imagino nem em um milhão de anos aceitando um pedido de cesárea assim, simplesmente, e de consciência tranquila. O casal cogitou ligar direto para outro médico e solicitar a cesárea, mas também sabiam que não seria tranquilo. Nesse meio tempo Mariana teve aquela crise de choro, a família recuou um pouco, alguém ligou e disse que a rigor não havia problema em esperar mais um pouco já que os exames estavam todos com resultados normais...

Aí as contrações começaram, eles tiveram fé de que nasceria logo. 

Mas o dia estava amanhecendo, Mariana quase desmaiou no chuveiro e daí pra frente ela mal conseguiu recuperar a calma. As lágrimas começaram a escorrer e a frase veio:
- “Eu não aguento mais”.

Após conversar um pouco e me certificar de que ela tinha atingido uma situação limite, liguei para a Dra Carla e disse que Mariana havia passado a noite com contrações, que estavam agora com intervalo de 3 a 4 minutos, mas ela agora estava solicitando a cesárea. Realizar a cirurgia em uma mulher que está em TP é bem diferente de tirar um bebê que não sentiu nenhuma contração sobre seu corpinho: o risco de prematuridade iatrogênica (provocada pelo médico) diminui drasticamente. Diante disto e também do histórico de ansiedade na última semana a solicitação do casal foi aceita e então fomos para a maternidade.

Chegando lá, eu e Mariana entramos e ficamos aguardando a enfermeira, o Rodrigo ficou fazendo a internação. O movimento no corredor estava bem baixo, ficamos quase sozinhas. As lágrimas começaram  novamente a correr, Mariana me abraçou e disse:
- “Vânia, da próxima vez eu vou fazer tudo diferente, mas agora eu não aguento mais, você não faz idéia do inferno que foram os últimos dias...”.

Quase chorei junto. Eu sabia o quanto ela havia se preparado e o nível de pressão que sofreram para ela chegar a este ponto de exaustão. E o pensamento inevitável que começa a rondar os casais que sofrem esse tipo de estresse: “e se acontecer alguma coisa e nós tivermos que escutar o resto da vida que nós fomos avisados”?

Tenho um livro maravilhoso que me foi dado de presente pela Dra Carla: Birthing from within. Há um capítulo que fala sobre o medo, e a autora diz que até um quadro com a figura de um tigre em posição de ataque é capaz de provocar uma certa descarga de adrenalina. E esse assunto sempre volta à pauta das reuniões do grupo de apoio ao parto: o medo contamina com muito mais facilidade do que a coragem. É essencial que as pessoas presentes no parto sejam confiantes. Se tiver uma com medo ela pode contaminar o grupo todo. E a confiança que Mariana e Rodrigo sentiam finalmente tinha sido vencida.



Enquanto ficamos no quarto aguardando que viessem prepará-la para a cesárea ela começou a sentir muito calor, e a pressão foi até aferida algumas vezes seguidas porque de repente ela ficava até vermelha e pedia socorro com o olhar. Eu pegava o que estivesse por perto para abaná-la e teve uma hora que pedi até a prancheta da enfermeira!  Com as contrações um pouco mais próximas, Mariana aceitou ir caminhando ao lado da maca até o centro cirúrgico porque deitada a sensação dolorosa seria maior. Quando saímos do quarto ela teve uma contração muito forte bem na frente de uma pequena plateia que aguardava o inicio do atendimento do ambulatório de alto risco. Enquanto eu fazia massagem nela observava as expressões de espanto... a dor do parto quase sempre é vista como se fosse um grande sofrimento e totalmente desnecessário. Fiquei pensando que um grande cartaz com a lista de todos os riscos de fazer uma cesárea fora de trabalho de parto deveria ser afixada nos corredores das maternidades e dos ambulatórios de pré-natal nos postos de saúde. Que tal avisar que não há um exame capaz de detectar maturidade neuronal e que fazer uma cesárea só porque um exame disse que os pulmões já estão maduros aumenta a probabilidade de ter um filho com problemas para mamar, e com hiperatividade e déficit de atenção? Não seria bom que as futuras mamães soubessem disso?

Ainda acompanhei o Rodrigo até o balcão da maternidade para pegar a ficha de autorização para acompanhar a cesárea. Fiquei na maternidade até que ela viesse para o quarto e tendo me certificado que estava tudo dentro do esperado fui embora de consciência tranquila. O casal sentiu-se bem atendido afinal. 

Voltando: a próxima lembrança vívida que tenho é da Mariana voltando ao GAPN, meses depois, com sua pequena Manuela nos braços, e começou seu depoimento dizendo algo assim:

- “Eu sou professora e sempre incentivo meus alunos a terem uma visão crítica sobre os assuntos desenvolvidos... hoje eu vim contar o que eu aprendi durante a minha gestação e parto que virou cesárea. Espero que a minha experiência possa servir de exemplo para que vocês tenham a chance de repensar estratégias antes que seja tarde... eu nunca quis cesárea...”.


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Oi Vânia,
Que bom que está gostando da nova vida. Ficamos felizes por você. 
Por aqui está tudo bem, a Manuela é uma graça ! Eu e o Rodrigo estamos encantados e muito felizes. Ela está andando por tudo, não para um minuto. 
Fique à vontade para publicar o relato. Só peço a gentileza de não publicar foto.

um grande abraço
Mariana
01/11/2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Heloísa, Marcelo e Luísa – 23/06/2010

Heloísa entrou em contato comigo pela internet. Achou o meu blog e o da Dra Carla, e veio para uma oficina de parto, marcada num sábado de manhã. Acordaram cedo e viajaram de SJRio Pardo para São Carlos, especialmente para fazer uma preparação para o parto. 

Era a segunda gestação de Heloísa, e me lembro deles durante a oficina contando o primeiro parto e dizendo que no dia seguinte o Marcelo tinha tantas dores pelo corpo que mais parecia que ele tinha sido atropelado... então a Katrina deu uma atenção a eles no sentido de prestarem atenção à postura para não sobrecarregar a coluna e o pescoço. No final desta oficina toquei minha música de índio, pedindo aos casais que prestassem atenção às mudanças de ritmo e à transição de um ritmo para o outro.  A fase de transição no trabalho de parto é a que vai dos 7 aos 10cm. É uma fase onde as contrações se tornam mais fortes e duradouras e às vezes dá impressão de que não vai dar para aguentar. Mas é só dar tempo ao tempo e a mulher se acostuma a esse novo ritmo, que faz a dilatação evoluir um pouco mais rápido e ela passa então para o estágio expulsivo: o final da música.












Algum tempo depois recebi um e-mail da Heloísa: “conversei com o Marcelo e... você viria doular aqui em SJosé?”

Aí tenho que explicar... eu já tinha recebido algumas solicitações de doulagens em outras cidades e nunca aceitei. Motivos: eu não tinha carro, só tinha moto. Dentro de São Carlos, quando é necessário eu vou de táxi, mas ir de táxi para uma cidade vizinha fica entre 200 e 400 reais... enfim, ficava tão difícil que por mais que eu quisesse dar um jeito... Só que no caso da Heloísa tinha um facilitador. Eu morei em Guaxupé, cidade vizinha a SJRPardo, então meu marido poderia me levar e ir para Guaxupé enquanto eu estivesse doulando. Achamos que não seria tão difícil e então eu aceitei. 

Combinamos assim: eu precisava ir pelo menos uma vez antes do dia P para conhecer o caminho e a casa. Ficamos uma manhã inteira conversando e vendo filmes, e deixei outros filmes para eles assistirem ao longo da semana, fizemos o plano de parto, tudo numa tacada só. E fui conhecer o quintal, imaginamos onde poderíamos amarrar uns lençóis, etc... tudo combinado, depois da visita fui passar uma noite em Guaxupé e mandei mensagem para quatro gestantes que eu acompanharia, explicando que estava longe, para me avisarem a qualquer sinal de TP e eu voltaria. Todos me responderam que ficasse tranquila porque estava tudo bem, e dormi muito bem a noite toda. Voltamos a São Carlos no domingo a tarde.

Eu e Heloísa continuamos sempre em contato, trocamos e-mails sobre os detalhes do plano de parto e então passamos a aguardar que a Luísa quisesse vir para o lado de cá.

Pedi para a minha mãe me emprestar o carro dela nos seguintes termos: quando a Helo me ligasse, eu e Raul iríamos de moto até a casa da minha mãe (60Km) e então seguiríamos de carro. Dois dias depois ela me ligou e disse que ficou pensando... e se estiver chovendo, e se for de madrugada, e se estiver chovendo, frio e for madrugada? Póis é, existe essa possibilidade! Então ela preferiu me emprestar o carro e deixá-lo comigo até a Luísa nascer. Falei que poderia demorar cinco semanas e ela respondeu que não tinha importância! Que posso dizer? Essa mulher é uma mãe prá mim!

Então fiquei com o carro e enquanto isso nasceram os dois bebês da oficina em que Heloísa e Marcelo vieram, e mais dois bebês da oficina do mês seguinte, de modo que quando ela entrou em TP eu não estava com nenhuma outra gestante com mais de 38 semanas! Sair de São Carlos por dois dias foi super tranquilo!

A médica que acompanharia o parto da Heloísa era assim: super a favor de parto normal desde que não ultrapassasse as 40 semanas, no máximo 40s e 2 ou 3 dias... eu morria de medo dessa história, e tinha a impressão de que qualquer dia ia ligar para a minha mãe e dizer que ela podia vir buscar o carro pq já tinham feito a cesárea... eca, Deusnoslivre de médicos que fazem cesárea só pq passou de 40 semanas, amém! 

Mas a Heloísa era super confiante de que nasceria antes das 40 semanas e assim foi. Ela me mandou uma mensagem numa linda manhã, dizendo:

“BOM DIA! SAIU O TAMPÃO HÁ DEZ MINUTOS. 
CONTRAÇÕES FRACAS E RITMADAS. HELÔ”.

Perguntei sobre a duração dos intervalos. Resposta:

“MAIS DE DEZ”.
Pedi então para me manter informada.

“OK. QUANDO EFETIVAR ENTÃO EU TE LIGO. BJS”.

 Fiquei super em dúvida na hora de mandar meu filho para a escola depois do almoço, mas resolvi que passar lá para pegá-lo não faria grande diferença no tempo que levaríamos para chegar a S.José, e ele foi para a escola normalmente. Ficou a tarde toda, e enquanto isso eu deixei tudo pronto para sair, e depois arrumei uns cartazes e crachás para a sessão na câmera de vereadores, onde naquela noite seria votado o projeto de lei complementar sobre o direito de acompanhante de escolha da parturiente durante todo o trabalho de parto, parto e pós-parto na maternidade de São Carlos.

Já estávamos nos arrumando para ir para essa sessão quando a Heloísa me ligou dizendo que a médica fez questão de vê-la no final da tarde e apesar das contrações não estarem ainda próximas, quis fazer um exame de toque, que revelou 6cm de dilatação. Então entreguei tudo para a minha super irmã ativista, Andréia, e pusemos o pé na estrada. Chegamos à casa dela perto das oito, e foi ela mesma quem atendeu o interfone e abriu o portão, dizendo lá de cima da escada: “nossa, vocês chegaram rápido”! Pois é, meu marido sabe até os buracos desta estrada de cor e salteado! 

Então o Raul e o Felipe seguiram até Guaxupé e eu entrei para ficar com eles. Estavam tranquilos, me perguntaram se eu queria comer alguma coisa, conversamos sobre a viagem... a Heloísa estava com as contrações um tanto espaçadas ainda, cerca de cinco minutos, mas logo começaram a ficar mais duradouras. 













Ela caminhou pela casa, pendurava-se no pescoço do Marcelo, depois colocou a bola sobre a cama e reclinou-se sobre ela, descansando ali durante uma boa meia hora.



Esquentei água para a bolsa de água quente, e Helo não quis muita massagem. Só teve uma hora que queixou-se de um pouco de dor nos pés e aceitou um pouco de massagem ali, mas por pouco tempo. Logo quis andar de novo. Depois sentiu vontade de fazer xixi algumas vezes seguidas, e ficava um pouco sentada no vaso sanitário. Muitas parturientes fazem isso, a posição ajuda bastante a relaxar.

A família do Marcelo ligou algumas vezes para saber porque ainda estavam em casa e ele tinha o maior cuidado, dizendo com muita calma que iriam quando fosse a hora.

Perto das dez da noite a Andréia (minha irmã) ligou para contar que a lei complementar foi aprovada por unanimidade! Yes!

Algumas contrações mais próximas e mais fortes, Helô abriu bem os olhos, respirou fundo e disse: 
- “ISSO É A TRANSIÇÃO”!

Nem tenho como explicar a alegria de ver uma mulher saber o que está acontecendo e continuar no controle da situação ao invés de sentir medo. Saber que a cada contração seu bebê está mais próximo do lado de cá, concentrar-se e permanecer tranquila.

Então estávamos na parte onde a banheira pode ser de grande ajuda. Eu tinha levado duas banheiras para podermos encher uma na casa dela e não precisar desmontar tudo para levar para a maternidade. Mas nas últimas consultas de pré-natal a médica disse para a Heloísa que não haveria problemas em montarmos a banheira lá na maternidade, e ela inclusive ficaria mais tranquila. Sendo assim, ficamos mais um pouco em casa, e logo a Heloísa disse firmemente que preferia ir para a maternidade porque se as contrações ficassem mais próximas o trajeto até lá poderia ser muito sofrido. Então pegamos as malas e fomos, bem devagar. No caminho o Marcelo ligou para a médica e avisou que estávamos indo.

Quando chegamos a médica estava de pé na frente da entrada da maternidade e quando a Helô desceu do carro ela disse:
- “Graças a Deus vocês vieram, eu não estava mais aguentando de ansiedade”.

Achei aquilo péssimo, e tive que lidar de novo com a variável “médica que nunca viu doula”. Rsrsrsr Não demorou um minuto para ela me perguntar quanto estava a dilatação. Respondi que devia estar entre 7 e 10, mas eu não faço toque...

Fomos para o setor da maternidade, entrei sem problemas, e a médica disse no caminho que queria fazer um exame de toque. Eu fui junto com a Heloísa e o toque até que foi tranquilo, ela disse que a dilatação estava quase 10 e a bebê um pouco alta. Mas aí ela quis ver a cor do liquido, usou o parelho próprio para isso, e depois me perguntou se eu queria ver também. Nunca tive esse tipo de curiosidade, afinal se não vou ficar fazendo esse exame, ver uma vez ou outra não vai me acrescentar nada. Agradeci e recusei, e ela tirou o aparelho, ajudei a Helô a se levantar antes da próxima contração.

Então ela foi encaminhada para o apartamento onde ficaria e nessa hora o pessoal da enfermagem parecia um pouco indeciso devido a uma reforma que estavam fazendo no hospital. Tive a impressão de que no apartamento onde ela ficaria, quando entraram estava tudo empoeirado, então deram meia volta e a levaram para outro apartamento. Arrumamos as malas e eu abri minha bolsa de doulagem, tirei a bolsa de água quente e o aquecedor, esquentei água, depois inflei a bola. Heloísa ajeitou-se ajoelhada no chão e inclinada sobre a bola que estava colocada sobre o sofá, com a bolsa de água quente nas costas.

Bom... ela ainda não estava com a dilatação completa, então eu e Marcelo inflamos a banheira, eu coloquei o plástico descartável e começamos a carregar água do chuveiro para encher a banheira. Eu tinha levado 8metros de mangueirinha para não ter que carregar água, mas o chuveiro não era de mangueirinha! Rsrsrsr Pedi a uma enfermeira se tinham um balde para emprestar, e ela perguntou se eu não tinha nada maior do que aquele canecão (onde eu esquento água para a bolsa de água quente). Ridículo, mas eu fiquei com raiva dela. Eu tinha levado, banheira, mangueirinha, canecão, resistência para esquentar água, bola suíça, e mais uma pancada de coisinhas úteis, aí ela me olha com a maior cara de desprezo e pergunta: - “você não tem nada maior que isso”?!!!! Juro que fiquei com vontade de falar a maior coleção de palavrões que ela deve ter escutado a vida toda... e respondi com cara de poucos amigos... - NÃO!!!

Aí ela saiu para procurar e eu continuei junto com o Marcelo, carregando água do chuveiro. Daí a cinco minutos no máximo outra enfermeira abriu a porta e perguntou: 

- “Quem é a doula? Você pode vir aqui fora falar comigo por favor”?
R) Claro! (Imaginando qual seria a encrenca dessa vez)

A moça se apresentou falando o cargo que ela ocupa, cic, rg e número de matrícula, e perguntou:

- "Quem deu autorização para encher essa banheira no quarto"?

R) A médica nos disse que não haveria problema.

- "Pois é, mas eu sou a responsável por esse setor e eu não fui consultada. Eu não posso permitir uma coisa tão fora dos padrões deste hospital sem consultar primeiro a diretoria, porque se amanhã der algum problema com essa moça vão dizer que foi por causa da banheira e eu é que vou ser chamada lá para responder... além do mais o gasto de água quente do hospital para encher essa banheira”...

Fiz sinal com a mão que ela não precisava falar mais nada. Ela parou de falar e eu disse:

R) Não tem problema. A banheira ajuda muito mas ela não é fundamental.

- “Ah que bom... porque veja, este hospital não está preparado para atender partos humanizados”...

Respondi: - Não tem problema.

Virei as costas, entrei no quarto e fechei a porta. Fechei a torneira do chuveiro, falei alguma coisa para a Heloisa sobre não terem deixado usar a banheira, mas graças a Deus ela já estava na fase em que a única coisa que importa é colocar o bebê para fora. A médica apareceu para dar um alô, lamentou que não pudéssemos usar a banheira e comentou que tinha levado “um pito” da enfermeira. Deu um longo suspiro... pediu que avisássemos quando a bolsa rompesse porque ela achava que depois disso o nascimento seria rápido. E saiu.

Veio outra moça da enfermagem, com uma prancheta, dirigiu-se à Heloísa, que estava tendo contrações longas com intervalos de um minuto, e começou a fazer peguntas: nome? Telefone? Tem celular? É o primeiro filho? Como foi o primeiro parto? Já sofreu algum aborto? Tipo sanguíneo? Fator Rh? Já recebeu transfusões alguma vez? Já passou por alguma cirurgia? Endereço? É casa ou apartamento? Você sabe o CEP?

Juro que quando ela perguntou o CEP eu quis voar no pescoço dela! Como é que pode meu Deus? Quanta falta de sensibilidade, quanta falta de preparo... e esse tipo de atendimento é o que quase todas as mulheres brasileiras recebem... que vontade que me deu de pegar em armas e fazer uma revolução!

Bom, continuando, o CEP foi a última pergunta da mocinha perguntadeira, graças a Deus. E quando ela estava acabando de fazer suas anotações a Heloísa falou:

- “Rompeu a bolsa”.

Líquido claro, eu e Marcelo providenciamos uma toalha para Heloisa se ajoelhar em cima, o líquido continuou escorrendo, contrações mais doloridas, fiquei ali, colocando a bolsa de água quente nos intervalos, e arrumei uma toalhinha que molhava com água gelada que tinha no quarto, e ela limpava o suor do rosto.

A médica voltou, eu não falei nada. Achei que se ela voltou logo depois da bolsa ter rompido seria porque a mocinha perguntadeira tinha contado.

Mas algumas contrações e Heloísa falou:
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAi tá nascendo! Tá nascendo,tá nascendo, tá nascendo!

A médica olhou prá mim e perguntou:
-“Já rompeu a bolsa”?!!!!!
Respondi: - “ué, já, eu achei que aquela moça que estava aqui tinha avisado a senhora!”

Kkk...

Aí virou um clima de correria, e a médica chegou a dizer:
- “Vamos logo porque se nascer no quarto vai ficar muito feio”!

Tóin!  Fomos ajudando a Heloísa a ir em direção ao centro obstétrico, que não era perto, e ela estava com dificuldade de andar. Então eu e Marcelo fizemos uma espécie de cadeirinha, cada um segurando uma perna e ela se segurando nos nossos ombros. Confesso que fiquei com medo da posição facilitar a descida da bebê, e respirei aliviada quando chegamos à entrada do centro obstétrico. O Marcelo entrou junto com a Helô, e eu fiquei aguardando permissão para entrar também, o que demorou um pouco, depois me trouxeram um terninho tamanho P e eu estou mais para GG... então a moça da enfermagem foi com toda a boa vontade do mundo procurar um terninho maior no vestiário dos homens. Chegou, me vesti  e entrei com a máquina, a moça me pediu que eu ficasse na porta, sem entrar na sala de parto. Tudo bem!

Tirei algumas fotos, parto frank, Heloísa notou que o relógio da parede estava parado, como vamos saber a hora que nasceu? Acharam um relógio, Helô sendo orientada a fazer força, Marcelo do lado ajudando e incentivando. E foi assim que ouvimos o chorinho da Luísa pela primeira vez. Helô olhou pra mim com um sorriso que chegava até os olhos, a expressão da vitória que eu já vi tantas vezes, uma imagem linda de se ver!



Ah, aí chegou o pediatra, P da vida, falando alto, reclamando de ser chamado à pressas! Foi até o bercinho aquecido e examinou a menininha, reclamou mais um pouco e foi embora. Kkk!

Quando ele saiu eu sai também e fui até o quarto, desmontei a banheira, limpei e guardei tudo, e ela não demorou a vir para o quarto. Estavam super felizes, conversamos um pouco, o Marcelo me levou para a casa deles e voltou para a maternidade para ficar com a Heloisa.

Eu tive dificuldade de dormir, mesmo depois de tomar um banho e esperar baixar a adrenalina... fiquei muito preocupada sabem porquê? Era junho, e esse foi o segundo parto normal do ano naquela maternidade (do convênio). A enfermagem de lá não está acostumada a avaliar hemorragia pós-parto e isso pode ser perigoso... passei a noite toda com vontade de ligar lá para perguntar se estava tudo bem, se o sangramento estava diminuindo. Consegui dormir pouco antes de amanhecer o dia.

Mais um pouco e as funcionárias dela chegaram, me levantei e tomei banho, encontrei um café da manhã caprichado. Liguei para o Raul e contei como tinha sido. Heloísa estava feliz, isso é o que importa.

Falei que queria ir na maternidade antes de ir embora para São Carlos, e uma irmã do Marcelo foi me buscar e me levou até lá. Entramos sem dificuldades, e os encontrei muito sorridentes. Conversamos, tiramos fotos, e ganhei uma lembrancinha do nascimento: uma almofadinha cor-de-rosa, linda, que até hoje está na minha caixa de costura. (Ah, pensaram que eu não tinha uma?! Tenho sim! Sei fazer barras e pregar botões direitinho!)

Helô! Adoro você. Aceitei te doular não só pela facilidade de ser vizinha de Guaxupé. Foi porque você me cativou. Eu AMEI fazer parte desta história, adorei sua família, adorei o Plínio... adorei sua casa, enfim, tudo que vem de você eu adoro. Sou sua fã de carteirinha.

Um grande beijo a você, Marcelo, Plínio, Luísa, e bebê na barriga. Vocês formam uma linda família.
Vânia Doula.

Luísa com 1 aninho. Linda!